CFH Advogados, Carneiro, Fernandes & Hammarstrom

Convolação em falência: os gatilhos que ninguém quer acionar

A recuperação não termina só de dois jeitos. Há uma lista curta de fatos que a transformam em falência, e quase todos são evitáveis com calendário.

O artigo 73 da Lei 11.101/2005 lista as hipóteses em que o juiz decreta a falência durante a recuperação judicial: deliberação da assembleia, não apresentação do plano no prazo, rejeição do plano sem cram down e descumprimento de obrigação do plano dentro do biênio de fiscalização. A Lei 14.112/2020 acrescentou o esvaziamento patrimonial.

Resumo

  • O gatilho mais comum não é a rejeição do plano: é o descumprimento dentro do biênio, quando a empresa aprova um cronograma otimista e a primeira safra ou o primeiro exercício não confirma a projeção.
  • Decretada a falência, o devedor perde a administração e a disponibilidade dos seus bens, que passam ao administrador judicial; os contratos se submetem ao regime dos artigos 117 e seguintes; os créditos se sujeitam à classificação do art.
  • Cabe aditar o plano e submetê-lo a nova assembleia enquanto a recuperação não está encerrada, e é esse o movimento que evita a convolação em falência quando o cronograma aprovado deixou de caber na realidade da empresa.
  • O custo da convolação em falência começa onde termina a administração: decretada a quebra, o devedor perde a administração e a disponibilidade dos bens, que passam ao administrador judicial, e a atividade deixa de gerar o caixa que pagaria o plano.

Os gatilhos

Os gatilhos
GatilhoBaseComo se evita
Deliberação da assembleia geral de credoresArt. 73, INegociação prévia com as classes
Não apresentação do plano em 60 diasArt. 73, II, c/c art. 53Calendário; plano pronto antes do prazo
Rejeição do plano sem os requisitos do cram downArt. 73, IIISimulação de quórum; aditamento antes da votação
Descumprimento de obrigação do plano no biênioArt. 73, IV, c/c art. 61, § 1ºCronograma conservador nos dois primeiros anos
Esvaziamento patrimonial que inviabilize a atividadeArt. 73, VIAutorização judicial para alienar ativo relevante
Descumprimento de parcelamento tributárioArt. 73, VAcompanhamento das obrigações fiscais correntes

O gatilho mais comum não é a rejeição do plano: é o descumprimento dentro do biênio, quando a empresa aprova um cronograma otimista e a primeira safra ou o primeiro exercício não confirma a projeção. O tratamento do prazo está em o produtor rural pode pedir recuperação duas vezes.

Dentro e fora do biênio

O art. 61 da Lei 11.101/2005 submete o devedor à fiscalização do cumprimento do plano durante dois anos contados da concessão, e o parágrafo primeiro determina que o descumprimento de qualquer obrigação prevista no plano nesse período acarreta a convolação em falência. Fora do biênio, o descumprimento não gera falência automática: o credor pode requerer a execução específica das obrigações do plano, que são título executivo judicial, ou requerer a falência pela via comum do art. 94 da Lei 11.101/2005, com a demonstração dos seus requisitos. A diferença explica por que os planos bem desenhados concentram carência e parcelas leves nos dois primeiros anos e deslocam o esforço para depois, desenho descrito em plano de recuperação judicial.

O que muda com a decretação

Decretada a falência, o devedor perde a administração e a disponibilidade dos seus bens, que passam ao administrador judicial; os contratos se submetem ao regime dos artigos 117 e seguintes; os créditos se sujeitam à classificação do art. 83 da Lei 11.101/2005, com os extraconcursais do artigo 84 recebendo primeiro; e os atos praticados no período suspeito ficam sujeitos à ineficácia e à ação revocatória. Para o produtor rural pessoa física, a falência alcança o patrimônio afetado à atividade empresarial, e a discussão sobre a extensão aos bens pessoais é sensível e casuística. As garantias pessoais seguem seu curso independentemente, como se explica em aval, fiança e o patrimônio do sócio, e os financiamentos tomados durante a recuperação conservam preferência, tema de financiamento DIP.

Quando cabe aditar o plano, em vez de deixar a convolação acontecer

Cabe aditar o plano e submetê-lo a nova assembleia enquanto a recuperação não está encerrada, e é esse o movimento que evita a convolação em falência quando o cronograma aprovado deixou de caber na realidade da empresa.

O aditamento é admitido pela lei e costuma ser autorizado quando existe perspectiva concreta de acordo, e serve tanto à rejeição em assembleia quanto ao descumprimento que se anuncia antes do vencimento. Ao lado dele, três movimentos mudam o desfecho: a negociação individual com o credor dissidente, desde que a condição oferecida não configure tratamento diferenciado na classe que rejeitou; a simulação da aritmética do cram down do artigo 58, parágrafo primeiro, feita antes da votação e não depois; e, no plano em curso, a repactuação das obrigações antes de a parcela vencer. Fora do biênio de fiscalização, o credor já não tem a convolação automática: resta-lhe a execução específica das obrigações do plano, que valem como título executivo judicial, ou o pedido de falência pela via comum do artigo 94.

O custo da convolação, comparado ao de manter o plano em pé

O custo da convolação em falência começa onde termina a administração: decretada a quebra, o devedor perde a administração e a disponibilidade dos bens, que passam ao administrador judicial, e a atividade deixa de gerar o caixa que pagaria o plano.

Daí em diante a conta muda de natureza. Os créditos passam à classificação do artigo 83 da Lei 11.101/2005, com os extraconcursais do artigo 84 recebendo antes, entre eles o financiamento tomado durante a recuperação, cuja preferência o artigo 69-B preserva, como se detalha em financiamento DIP. Os atos praticados no período suspeito ficam sujeitos à ineficácia e à ação revocatória. A remuneração do administrador judicial continua como despesa, agora da massa. E o ativo deixa de contar com a estrutura de venda que o plano permitia, a alienação de unidade produtiva isolada livre de ônus e sem sucessão, descrita em venda de ativos como UPI, que é justamente o que atrai comprador.

Quem decreta a falência e em que vara ela corre em MS e em MT

Quem decreta a falência é o próprio juízo da recuperação, nas hipóteses do artigo 73 da Lei 11.101/2005, e esse juízo é o do principal estabelecimento do devedor, pelo artigo 3º da mesma lei.

Em Mato Grosso do Sul, falência e recuperação judicial estão concentradas em quatro varas regionais, pela Resolução TJMS 288, de 3 de maio de 2023; em Mato Grosso, em três, pela Resolução TJ-MT/OE nº 10, de 30 de julho de 2020, com o critério do domicílio comercial, e o mapa por município está em onde se pede recuperação judicial em MS e em MT. Quem provoca a decretação varia conforme o gatilho: a assembleia, por deliberação; o administrador judicial, que tem entre as atribuições do artigo 22 requerer a falência no caso de descumprimento do plano; e o credor, pela via comum do artigo 94. Para o produtor rural, a distância pesa duas vezes, porque perícia, constatação e assembleia se deslocam até a propriedade.

Erros comuns que levam à convolação em falência

  • Aprovar plano com parcelas pesadas nos dois primeiros anos
  • Perder o prazo de 60 dias do plano
  • Alienar ativo relevante sem autorização judicial
  • Descumprir parcelamento tributário durante a recuperação
  • Ir à assembleia sem calcular o cram down

Conteúdo informativo. Cada caso é avaliado individualmente, a partir da documentação contábil, do perfil do passivo e do comportamento dos credores, e nada aqui substitui a análise do caso concreto nem representa promessa de resultado.

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Este conteúdo integra a área de Recuperação judicial do produtor rural.

Conteúdo informativo. Cada caso é avaliado individualmente, a partir dos documentos e das garantias envolvidas, e nada aqui substitui a análise do caso concreto nem representa promessa de resultado.

Perguntas frequentes

O que converte a recuperação em falência?

As hipóteses do artigo 73: deliberação da assembleia, não apresentação do plano em 60 dias, rejeição sem cram down, descumprimento no biênio, esvaziamento patrimonial e descumprimento de parcelamento tributário.

Descumprir o plano sempre gera falência?

Dentro dos dois anos de fiscalização, sim. Depois, o credor executa as obrigações do plano ou requer a falência pela via comum.

A rejeição do plano leva direto à falência?

Só se não estiverem presentes os requisitos do cram down do artigo 58, § 1º, e não houver aditamento aprovado.

O que acontece com o devedor na falência?

Perde a administração e a disponibilidade dos bens, que passam ao administrador judicial, e os créditos se sujeitam à classificação do artigo 83.

Qual é o gatilho mais frequente na prática?

O gatilho mais comum não é a rejeição do plano: é o descumprimento dentro do biênio, quando se aprova um cronograma otimista e o primeiro exercício, ou a primeira safra, não confirma a projeção. É o que explica planos com carência e parcelas leves nos dois primeiros anos.

Vender bens durante a recuperação pode levar à falência?

O esvaziamento patrimonial que inviabilize a atividade é hipótese de convolação em falência do artigo 73. A alienação de ativo relevante durante o processo depende de autorização judicial ou de previsão no plano.

Atrasar o parcelamento tributário tem efeito no processo?

O descumprimento do parcelamento tributário é uma das hipóteses de convolação em falência do artigo 73, o que coloca o acompanhamento das obrigações fiscais correntes na rotina do processo.

Na falência do produtor rural pessoa física, o que é alcançado?

A falência alcança o patrimônio afetado à atividade empresarial, e a extensão aos bens pessoais é discussão sensível, decidida caso a caso. As garantias pessoais dadas por terceiros seguem o seu curso independentemente disso.

Retrato de Edgar A. G. Fernandes

Responsável pelo conteúdo

Edgar A. G. Fernandes

OAB/MS 19.237, advogado e administrador judicial credenciado pela TMA Brasil.

Publicado em · Revisado em · 7 min de leitura
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