CFH Advogados, Carneiro, Fernandes & Hammarstrom

Encerramento da recuperação e o que vem depois

O processo termina antes do plano. A sentença de encerramento fecha os autos, e o cronograma de pagamento segue por anos fora deles.

Cumpridas as obrigações vencidas nos dois anos seguintes à concessão, o juiz decreta por sentença o encerramento da recuperação judicial, pelo artigo 63 da Lei 11.101/2005. O plano continua valendo: as parcelas futuras seguem sendo devidas nas condições aprovadas, e a decisão que concedeu a recuperação permanece como título executivo judicial.

Resumo

  • O encerramento devolve autonomia: acabam a fiscalização mensal, a necessidade de autorização para alienar ativo não circulante e o custo do administrador judicial.
  • Com o encerramento da recuperação cessam a remuneração do administrador judicial e a fiscalização mensal, e a própria sentença do artigo 63 da Lei 11.101/2005 manda pagar o saldo de honorários dele e apurar o saldo das custas devidas.
  • A alternativa ao novo pedido, dentro da carência de cinco anos do artigo 48, II, da Lei 11.101/2005, é contratual: aditar o plano ainda vigente, renegociar com os credores relevantes ou sustentar um standstill enquanto a reestruturação é desenhada.
  • Quem encerra a recuperação judicial é o juízo em que ela tramitou, por sentença, e dele saem as determinações do artigo 63 da Lei 11.101/2005, inclusive a comunicação ao Registro Público de Empresas e a exoneração do administrador judicial.

A sentença de encerramento

O art. 63 da Lei 11.101/2005 determina que, cumpridas as obrigações vencidas no prazo de dois anos contado da concessão, o juiz decretará por sentença o encerramento da recuperação judicial, determinando: o pagamento do saldo de honorários ao administrador judicial; a apuração do saldo das custas devidas; a apresentação de relatório circunstanciado pelo administrador judicial, em quinze dias, sobre a execução do plano; a dissolução do comitê de credores e a exoneração do administrador judicial; e a comunicação ao Registro Público de Empresas. O encerramento pressupõe, portanto, que o devedor tenha atravessado o biênio sem descumprir o que venceu nele, período cujos riscos estão em convolação em falência.

O que continua depois

O que continua depois
PontoSituação após o encerramento
Parcelas futuras do planoContinuam devidas nas condições aprovadas
Natureza da obrigaçãoTítulo executivo judicial (art. 59, § 1º)
DescumprimentoExecução específica ou pedido de falência pela via comum (art. 94)
Fiscalização do administrador judicialCessa com a exoneração
Restrições do art. 66 para alienar ativoCessam
Garantias mantidas pelo planoSeguem conforme o que foi aprovado
Novo pedido de recuperaçãoSó após cinco anos da concessão anterior (art. 48, II)
Crédito e cadastroA recuperação encerrada continua sendo informação pública do registro

O efeito prático para a empresa e para o produtor

O encerramento devolve autonomia: acabam a fiscalização mensal, a necessidade de autorização para alienar ativo não circulante e o custo do administrador judicial. O que não acaba é o plano, e o erro mais comum do período seguinte é tratar o fim do processo como quitação. As parcelas seguem, e o credor que não recebe executa o título, agora fora da recuperação, pelas vias descritas em defesa em execução. Do lado do crédito bancário, o encerramento ajuda, mas o histórico permanece, e a retomada do financiamento costuma exigir garantias reforçadas, o que remete ao levantamento tratado em garantias do crédito rural.

Quando a crise volta

A carência do art. 48, II da Lei 11.101/2005 impede novo pedido de recuperação judicial antes de cinco anos da concessão anterior, e a mesma restrição alcança a recuperação extrajudicial. Voltando a crise dentro desse prazo, os caminhos são contratuais: renegociar com os credores relevantes, buscar standstill, reestruturar o passivo remanescente fora da lei falimentar, o conjunto descrito em reestruturação de passivos e em acordo de credores fora da Lei 11.101. Também aqui a diferença entre aditar o plano ainda vigente e contratar novação nova é técnica e decisiva.

Os custos que cessam com o encerramento e os que continuam

Com o encerramento da recuperação cessam a remuneração do administrador judicial e a fiscalização mensal, e a própria sentença do artigo 63 da Lei 11.101/2005 manda pagar o saldo de honorários dele e apurar o saldo das custas devidas.

O que continua é o plano. As parcelas futuras seguem nas condições aprovadas, e com elas o custo de manter contabilidade organizada e comprovantes em ordem, porque a decisão que concedeu a recuperação vale como título executivo judicial e é por ele que o credor cobra. Continuam também as obrigações correntes de tributos, folha e fornecedores, que nunca estiveram no plano. A remuneração que sai do fluxo tem teto no artigo 24 da mesma lei, de cinco por cento do valor devido aos credores sujeitos, ou dois por cento nas recuperações de microempresa e empresa de pequeno porte, e é uma economia que raramente aparece no cronograma desenhado para os anos seguintes. Ela é justamente a folga que ajuda a sustentar as parcelas mais longas do plano.

As alternativas quando a crise volta: aditivo ao plano em vez de novo pedido

A alternativa ao novo pedido, dentro da carência de cinco anos do artigo 48, II, da Lei 11.101/2005, é contratual: aditar o plano ainda vigente, renegociar com os credores relevantes ou sustentar um standstill enquanto a reestruturação é desenhada.

A carência alcança também a recuperação extrajudicial, por remissão do artigo 161, o que estreita a via judicial e empurra a solução para o terreno privado, onde o acordo com vários credores é preservado pelo artigo 167 e tratado em acordo de credores fora da Lei 11.101. A diferença entre as duas formas é técnica e decisiva: aditar o plano vigente mantém a obrigação que ele criou, com as garantias que preservou, enquanto contratar novação nova extingue a obrigação anterior e extingue com ela os acessórios e as garantias, salvo ressalva expressa, pelo artigo 364 do Código Civil. Garantia de terceiro e coobrigado só permanecem se consentirem. Escolher sem olhar esse efeito é a forma mais comum de perder garantia de um lado ou de criar dívida nova sobre a antiga do outro.

Quem encerra o processo, e onde a baixa se registra em MS e em MT

Quem encerra a recuperação judicial é o juízo em que ela tramitou, por sentença, e dele saem as determinações do artigo 63 da Lei 11.101/2005, inclusive a comunicação ao Registro Público de Empresas e a exoneração do administrador judicial.

Em Mato Grosso do Sul e em Mato Grosso esse juízo é uma das varas regionais de falência e recuperação, pela Resolução TJMS 288, de 3 de maio de 2023, e pela Resolução TJ-MT/OE nº 10, de 30 de julho de 2020. Encerrado o processo, dois atos ficam para quem tem imóvel: o cancelamento da averbação da recuperação na matrícula, pedido no Registro de Imóveis da circunscrição do imóvel, e a baixa dos gravames que o plano previu liberar, que não acontece sozinha com a quitação. O relatório circunstanciado do administrador judicial sobre a execução do plano, apresentado em quinze dias, é a peça que credor e comprador consultam depois, e vale acompanhar o que ele registra. Averbação não cancelada reaparece anos mais tarde, numa venda ou num financiamento, como se descreve em averbação da recuperação judicial na matrícula.

Erros comuns

  • Tratar o encerramento como quitação do plano
  • Deixar de acompanhar o relatório final do administrador judicial
  • Contrair dívida nova sem medir o cronograma do plano em curso
  • Contar com novo pedido de recuperação dentro dos cinco anos
  • Não formalizar aditivos ao plano quando a capacidade de pagamento muda

Conteúdo informativo. Cada caso é avaliado individualmente, a partir da documentação contábil, do perfil do passivo e do comportamento dos credores, e nada aqui substitui a análise do caso concreto nem representa promessa de resultado.

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Este conteúdo integra a área de Recuperação judicial do produtor rural.

Conteúdo informativo. Cada caso é avaliado individualmente, a partir dos documentos e das garantias envolvidas, e nada aqui substitui a análise do caso concreto nem representa promessa de resultado.

Perguntas frequentes

Quando a recuperação judicial é encerrada?

Depois de cumpridas as obrigações vencidas nos dois anos seguintes à concessão, por sentença, pelo artigo 63 da Lei 11.101.

As parcelas do plano acabam com o encerramento?

Não. O plano continua valendo, e as parcelas futuras seguem devidas nas condições aprovadas.

O que acontece se eu não pagar depois do encerramento?

O credor executa as obrigações do plano, que valem como título executivo judicial, ou requer a falência pela via comum.

Posso pedir recuperação de novo depois do encerramento?

Só depois de cinco anos contados da concessão da recuperação anterior.

O que a sentença de encerramento determina?

A sentença determina o pagamento do saldo de honorários ao administrador judicial, a apuração do saldo das custas, a apresentação de relatório circunstanciado sobre a execução do plano em quinze dias, a dissolução do comitê de credores com a exoneração do administrador judicial e a comunicação ao Registro Público de Empresas.

Depois do encerramento posso vender um imóvel sem autorização?

Com o encerramento cessam a fiscalização mensal e as restrições do artigo 66 para alienar ou onerar bens do ativo não circulante. O que não cessa é o plano, cujas parcelas futuras continuam devidas nas condições aprovadas.

A crise voltou antes dos cinco anos. Que caminhos restam?

Dentro da carência, os caminhos são contratuais: renegociar com os credores relevantes, buscar standstill e reestruturar o passivo remanescente fora da lei falimentar. A restrição de cinco anos alcança também a recuperação extrajudicial.

O encerramento melhora o acesso a crédito?

O encerramento ajuda, mas o histórico permanece como informação pública do registro, e a retomada do financiamento costuma exigir garantias reforçadas. É o momento de levantar com clareza o que ainda está livre e o que já está gravado.

Retrato de Edgar A. G. Fernandes

Responsável pelo conteúdo

Edgar A. G. Fernandes

OAB/MS 19.237, advogado e administrador judicial credenciado pela TMA Brasil.

Publicado em · Revisado em · 7 min de leitura
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