CFH Advogados, Carneiro, Fernandes & Hammarstrom

Consolidação da propriedade em imóvel rural: as diferenças de procedimento

A Lei 9.514 é a mesma para a fazenda e para o apartamento. O cartório, o INCRA, a safra e o arrendatário é que não são.

A consolidação da propriedade fiduciária de imóvel rural segue o artigo 26 da Lei 9.514, mas a averbação e o leilão exigem o que a terra exige: georreferenciamento certificado, CCIR, quitação do ITR e atenção ao CAR. A safra, as benfeitorias e o arrendatário entram na conta, e a Lei do Agro criou garantias próprias.

Resumo

  • A averbação da consolidação e, depois, o registro da venda em leilão são atos de transmissão de imóvel rural, e a Lei 6.015/1973, artigo 176 exige, para eles, o georreferenciamento certificado pelo INCRA, conforme o cronograma por área.
  • Consolidada a propriedade, a fazenda é do credor, mas a safra plantada pode não ser: pode ter sido vendida por CPR, penhorada em execução de outro credor ou pertencer ao arrendatário.
  • Os prazos legais da consolidação em imóvel rural são os mesmos do urbano: quinze dias para o devedor purgar a mora depois de intimado, pelo artigo 26, e, averbada a consolidação, trinta dias para o primeiro leilão e quinze para o segundo, pelo art.

O que o cartório exige a mais

A averbação da consolidação e, depois, o registro da venda em leilão são atos de transmissão de imóvel rural, e a Lei 6.015/1973, artigo 176 exige, para eles, o georreferenciamento certificado pelo INCRA, conforme o cronograma por área. Se a matrícula não o tem, o credor precisa providenciá-lo para consolidar, o que atrasa o procedimento em meses e é frequentemente esquecido nos contratos. A Lei 5.868/1972 exige o CCIR, e a art. 21 da Lei 9.393/1996 a prova de quitação do ITR dos últimos cinco anos. O CAR, da Lei 12.651/2012, não é exigido para o registro, mas o imóvel sem CAR ou com reserva legal irregular vale menos e trava o crédito do adquirente. A situação registral é a mesma que a regularização de imóvel rural resolve, e o credor que a ignora ao contratar descobre na hora de executar. O rito geral está em consolidação da propriedade.

Safra, benfeitorias e quem está na terra

Consolidada a propriedade, a fazenda é do credor, mas a safra plantada pode não ser: pode ter sido vendida por CPR, penhorada em execução de outro credor ou pertencer ao arrendatário. O credor que consolida no meio do ciclo produtivo enfrenta a discussão sobre quem colhe, e a jurisprudência tende a proteger o ciclo em curso. As benfeitorias integram o imóvel e o seu valor de leilão, e o devedor as recebe no saldo, pelo artigo 27. O arrendatário com contrato agrário registrado, regido pelo Decreto 59.566/1966, permanece até o fim do prazo ou do ciclo, e o adquirente o recebe como ocupante com título; a reintegração de posse do artigo 30 alcança o devedor, não o arrendatário regular. A pequena propriedade rural trabalhada pela família tem a impenhorabilidade da art. 5º, XXVI da Constituição Federal, que a jurisprudência discute quanto à alienação fiduciária voluntária: o devedor que a deu em garantia tem defesa mais difícil, mas não impossível.

A Lei do Agro e as garantias rurais

A Lei 13.986/2020 criou instrumentos que aparecem na matrícula rural e mudam a leitura: o patrimônio rural em afetação, pelo qual o produtor destaca parte do imóvel para garantir operações específicas, com regime próprio de execução; a Cédula Imobiliária Rural, título que embute a alienação fiduciária do imóvel afetado e cuja execução segue rito próprio, com consolidação e leilão; e regras sobre o fundo garantidor e o registro eletrônico. O credor de CIR consolida a propriedade da fração afetada, e não da fazenda inteira; o arrematante verifica a área afetada, a certificação dela e a existência de outras afetações. A conjugação dessas figuras com a alienação fiduciária comum e com o recarregamento da Lei 14.711 produz matrículas rurais que exigem leitura profissional, tema de garantias do crédito rural.

Os prazos da consolidação em imóvel rural, e quando o cartório atrasa

Os prazos legais da consolidação em imóvel rural são os mesmos do urbano: quinze dias para o devedor purgar a mora depois de intimado, pelo artigo 26, e, averbada a consolidação, trinta dias para o primeiro leilão e quinze para o segundo, pelo art. 27 da Lei 9.514/1997. O que muda na fazenda é o tempo que o procedimento leva para chegar a esses marcos. Matrícula sem georreferenciamento certificado trava a averbação até que planta, memorial e certificação no INCRA saiam, o que se conta em meses; CCIR irregular e ITR sem quitação produzem exigência do cartório antes do registro. Para o devedor, esse intervalo é o tempo real que ele tem para purgar, negociar ou exercer a preferência de recompra. Para quem pretende arrematar, é o tempo de conferir cadastro, área e situação ambiental, e de perguntar quem está na terra e de quem é a safra em curso.

Urbano e rural na consolidação

Urbano e rural na consolidação
PontoImóvel urbanoImóvel rural
Averbação da consolidaçãoITBI e certidõesITBI, georreferenciamento, CCIR, ITR
O que se consolidaO imóvelO imóvel ou a fração afetada (CIR)
FrutosAluguel, se houverSafra: pode ser de terceiro
Ocupante com títuloLocatárioArrendatário com contrato agrário
Reintegração (art. 30)Contra o devedorContra o devedor; não contra arrendatário regular
ImpenhorabilidadeBem de famíliaPequena propriedade familiar (discutida na AF)
Cadastros pós-consolidaçãoIPTUCCIR, CAR, ITR em nome do credor

Erros comuns

  • Credor contratar alienação fiduciária de fazenda sem georreferenciamento e não conseguir consolidar
  • Consolidar no meio da safra sem definir quem colhe
  • Tentar reintegração contra arrendatário com contrato registrado
  • Arrematante não verificar se a garantia é sobre fração afetada
  • Ignorar CCIR, CAR e ITR depois da consolidação

Conteúdo informativo. Cada caso é avaliado individualmente, a partir do contrato, da matrícula e do procedimento no cartório, e nada aqui substitui a análise do caso concreto nem representa promessa de resultado.

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Este conteúdo integra a área de Leilão de imóveis.

Conteúdo informativo. Cada caso é avaliado individualmente, a partir dos documentos e das garantias envolvidas, e nada aqui substitui a análise do caso concreto nem representa promessa de resultado.

Perguntas frequentes

A alienação fiduciária de fazenda segue a mesma lei?

Sim, a Lei 9.514. O que muda são as exigências do registro rural, os cadastros, a safra, o arrendatário e as garantias da Lei do Agro.

O credor pode consolidar sem georreferenciamento?

A averbação de transmissão de imóvel rural exige a certificação do INCRA conforme a área. Sem ela, o cartório não averba, e o credor precisa providenciá-la.

A safra plantada é do credor depois da consolidação?

Não necessariamente. Pode ter sido vendida por CPR, penhorada por outro credor ou pertencer ao arrendatário. A jurisprudência protege o ciclo em curso.

O que é a Cédula Imobiliária Rural?

Título da Lei 13.986/2020 que embute a alienação fiduciária de uma fração afetada do imóvel rural, com consolidação e leilão próprios dessa fração.

O arrendatário sai com a consolidação?

Arrendatário com contrato agrário registrado permanece até o fim do prazo ou do ciclo, e a reintegração alcança o devedor, não ele. O adquirente o recebe como ocupante com título.

Quais cadastros passam ao credor depois da consolidação?

CCIR, CAR e ITR passam ao nome do credor que consolidou e, depois, ao do adquirente no leilão. Deixá-los desatualizados tira do imóvel a condição de crédito e trava a transmissão seguinte.

Retrato de Patrick Hammarstrom

Responsável pelo conteúdo

Patrick Hammarstrom

OAB/MS 20.674, sócio nominal e administrador judicial certificado pela TMA Brasil.

Publicado em · Revisado em · 5 min de leitura
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