Leilão de imóveis
O rito e os riscos.
A verificação anterior ao lance é o que separa a arrematação boa do prejuízo que só aparece depois do pagamento.
Due diligence de imóvel em leilão é a verificação, antes do lance, de tudo o que pode virar prejuízo depois: edital, matrícula ato por ato, certidões, ocupação, débitos e processo de origem. O resultado é um parecer com os riscos, o custo real do lance e a recomendação: arrematar, arrematar até certo valor, ou não.
Resumo
A checagem de fazenda tem camadas que a de apartamento não tem: CCIR e ITR em dia, CAR ativo e sem embargo, área certificada pelo INCRA, ausência de sobreposição com vizinhos, contratos agrários em curso e safra eventualmente empenhada. Qualquer uma delas pode inviabilizar o registro ou a posse.
O art. 886 do Código de Processo Civil exige que o edital descreva o bem com suas características e a matrícula, informe o valor da avaliação, o preço mínimo, a forma de pagamento, a comissão do leiloeiro, os ônus e os recursos ou processos pendentes sobre o bem, e o dia, a hora e o local dos leilões. A leitura confere se essas informações estão completas e se batem com a matrícula, porque divergência entre edital e matrícula é vício que pode invalidar a arrematação ou, pior, deixar o arrematante com um bem diferente do que comprou. O edital diz ainda o que o arrematante assume: débitos de condomínio, desocupação por conta própria, estado de conservação. O que o edital atribui ao comprador entra no custo; o que ele omite, na arrematação judicial, tende a ficar com o preço, pelo art. 130, parágrafo único do Código Tributário Nacional.
A matrícula é lida do primeiro ato ao último. Verifica-se a cadeia dominial, para saber se o executado é mesmo o dono e como adquiriu; os ônus, como hipoteca de terceiro que não é o exequente, penhoras de outras execuções, alienação fiduciária, usufruto, servidão; as averbações, como indisponibilidade, existência de ação, cláusula de inalienabilidade, locação com vigência; e a descrição do imóvel, para conferir área e confrontações com o edital. Hipoteca de terceiro que não foi intimado do leilão, como exige o art. 889 do Código de Processo Civil, é causa de ineficácia da arrematação perante ele. Indisponibilidade averbada impede o registro. Cada um desses achados muda o parecer, e a leitura de matrícula é tema de página própria em imóveis e garantias.
As certidões fiscais do imóvel apuram IPTU ou ITR e taxas em aberto; na arrematação judicial elas se sub-rogam no preço, pelo Tema 1.134 do STJ, mas no extrajudicial ficam com quem o edital disser. A certidão do condomínio apura as cotas vencidas, que a jurisprudência transfere ao arrematante quando o edital as menciona. As certidões judiciais do executado revelam outras execuções que podem alcançar o bem e ações que discutem a própria propriedade. A vistoria, ou a consulta ao oficial de justiça e à vizinhança quando a vistoria não é possível, apura se o imóvel está ocupado, por quem e a que título: executado, locatário com contrato averbado, possuidor antigo. Cada resposta muda o tempo e o custo da posse, tema de imissão na posse.
Na arrematação judicial, a análise inclui os autos da execução: se a penhora foi registrada, se o executado e os demais interessados do art. 889 do Código de Processo Civil foram intimados, se a avaliação é recente e fundamentada, se há embargos ou impugnação pendentes que possam derrubar a execução, se há recurso com efeito suspensivo. Arrematação em execução que depois é extinta por vício anterior à penhora expõe o arrematante à evicção, e o art. 903 do Código de Processo Civil manda que ele seja indenizado, mas indenização é processo, não imóvel. No extrajudicial, a análise inclui a regularidade da intimação do devedor para purgar a mora e da consolidação, porque vício nessa fase é o fundamento mais comum de anulação, tema de consolidação da propriedade.
| Entrega | Conteúdo |
|---|---|
| Mapa de riscos | Cada achado, sua gravidade e o que ele custa em tempo e dinheiro |
| Custo real do lance | Preço, comissão, ITBI, registro, débitos assumidos, desocupação, regularização |
| Lance máximo recomendado | O valor a partir do qual o negócio deixa de compensar |
| Providências pós-arrematação | O que fazer, em que ordem, e quanto tempo leva |
| Recomendação | Arrematar, arrematar até o teto, ou não arrematar |
O parecer é entregue antes da data do leilão, com tempo para decidir. Quando a recomendação é não arrematar, ela vem com o motivo: é parte do serviço dizer não.
A due diligence de imóvel rural em leilão depende de documentos que não chegam no mesmo dia, e é por isso que ela tem requisito de prazo antes de ter requisito de conteúdo. O conjunto mínimo reúne o edital completo, a certidão de inteiro teor da matrícula, a certidão de ônus reais, as certidões de distribuição em nome do executado na comarca do domicílio e na da situação do bem, as certidões fiscais do imóvel e as peças dos autos da execução, em especial o termo de penhora, o laudo de avaliação, as intimações do artigo 889 do Código de Processo Civil e eventuais embargos pendentes.
Em fazenda, acrescentam-se quatro documentos próprios: o certificado de cadastro no INCRA, a comprovação do imposto territorial rural dos últimos cinco exercícios, que o artigo 21 da Lei 9.393/1996 exige para o registro da transmissão, o extrato do Cadastro Ambiental Rural com a situação da análise, e o memorial georreferenciado com a certificação dos limites, quando houver. Quando o leilão é extrajudicial, entra a certidão do procedimento no cartório, com as tentativas de intimação uma a uma. Quanto ao momento: o pedido das certidões precisa ser feito com semanas de antecedência, porque análise iniciada na véspera do leilão fica sem a peça que mais importa.
Nem toda due diligence de imóvel em leilão tem a mesma profundidade, e o interessado precisa saber o que cada nível deixa descoberto antes de decidir até onde ir.
| Nível | O que cobre | O que fica descoberto |
|---|---|---|
| Leitura do edital | Modalidade, preço mínimo, comissão e o que o edital atribui ao comprador | Ônus, cadeia dominial, ocupação, débitos e vícios do processo |
| Edital e matrícula | Ônus registrados, descrição e averbações | Débitos fiscais e condominiais, ocupação e intimações do leilão |
| Edital, matrícula e certidões | Débitos do imóvel e execuções contra o executado | Intimações, avaliação, embargos pendentes e quem está no imóvel |
| Análise completa, com autos e vistoria | Todo o anterior, mais o processo de origem e a ocupação real | Vício anterior à penhora que nenhum registro revela |
O critério de escolha não é o valor do imóvel: é a concentração do risco. Imóvel desocupado, com matrícula limpa e execução simples suporta análise intermediária. Fazenda ocupada, com cadeia dominial longa, área não certificada e passivo ambiental possível só se arremata com análise completa, porque cada um desses pontos pode custar mais do que o desconto do leilão.
Cada achado da due diligence de imóvel rural se resolve em um endereço diferente, e confundi-los é o que faz o arrematante perder tempo depois do lance. Ônus, cadeia dominial, descrição e averbação de indisponibilidade se resolvem no Registro de Imóveis da circunscrição do bem, que é também quem registra o título e cancela o que a arrematação extinguiu. Os limites da área e a ausência de sobreposição são atestados exclusivamente pelo INCRA, pelo SIGEF. A situação do Cadastro Ambiental Rural, o embargo e o passivo de reserva legal correm no órgão ambiental do estado onde o imóvel está.
Os débitos têm titulares próprios: o município cobra o imposto predial e o de transmissão, a Receita Federal responde pelo imposto territorial rural, e o condomínio, quando existe, cobra por si. Já os vícios do leilão são judiciais: alegam-se no juízo da execução dentro do prazo do artigo 903 do Código de Processo Civil ou, depois da carta, em ação autônoma. No rito extrajudicial, não havendo processo anterior, a irregularidade da intimação e da consolidação se discute em ação própria. Nenhum cartório anula arrematação, e nenhum juízo certifica limites.
Em Mato Grosso do Sul e em Mato Grosso, a due diligence de imóvel rural tem três camadas que a análise de imóvel urbano não tem, e as três costumam decidir o lance. A primeira é a área: matrícula antiga descrita por confrontações, sem certificação dos limites pelo INCRA, pode impedir o registro do título depois de o preço estar pago, e a conferência se faz antes, comparando a matrícula com o levantamento disponível.
A segunda é a ocupação, que na fazenda raramente é só do executado: arrendatário com contrato em vigor, parceiro, empregado com moradia e safra plantada por terceiro, por vezes empenhada a outro credor. A terceira é ambiental: pendência no Cadastro Ambiental Rural ou embargo do IMASUL, em Mato Grosso do Sul, ou da SEMA, em Mato Grosso, impede o uso da área e acompanha o imóvel. Some-se a distância: vistoria em área extensa exige deslocamento e descrição detalhada, e quando ela não é possível, a consulta ao oficial de justiça e aos confrontantes substitui parcialmente a visita. O escritório atende os dois estados de Dourados.
Recebe o edital e o número do processo ou do contrato, obtém matrícula, certidões e autos, faz ou orienta a vistoria, e entrega o parecer com mapa de riscos, custo real e lance máximo. Acompanha o leilão e, se houver arrematação, conduz o registro e a posse.
Cada caso é avaliado individualmente, a partir dos documentos e das garantias envolvidas. Este conteúdo é informativo e não substitui a análise do caso concreto, nem representa promessa de resultado.
A verificação prévia de edital, matrícula, certidões, ocupação, débitos e processo de origem, com parecer sobre riscos, custo real e lance máximo.
O suficiente para obter certidões e, se necessário, os autos: em geral algumas semanas. Análise na véspera fica incompleta.
Não. Ela identifica os riscos visíveis na documentação e os precifica. Riscos ocultos, como vício anterior à penhora que ninguém registrou, são reduzidos, não eliminados.
A recomendação de não arrematar vem com o motivo e com o que faria o negócio compensar, se houver. Dizer não é parte do serviço.
O conjunto mínimo reúne o edital completo, a certidão de inteiro teor da matrícula, a certidão de ônus reais, as certidões de distribuição em nome do executado na comarca do domicílio e na da situação do bem, as certidões fiscais do imóvel e as peças dos autos da execução, em especial o termo de penhora, o laudo de avaliação e as intimações do artigo 889 do Código de Processo Civil. Em fazenda, acrescentam-se o CCIR, a comprovação do ITR dos últimos cinco exercícios, o extrato do Cadastro Ambiental Rural e o memorial georreferenciado.
O critério de escolha não é o valor do imóvel: é a concentração do risco. Imóvel desocupado, com matrícula limpa e execução simples suporta análise intermediária. Fazenda ocupada, com cadeia dominial longa, área não certificada e passivo ambiental possível só se arremata com análise completa, porque cada um desses pontos pode custar mais do que o desconto do leilão.
Ônus, cadeia dominial, descrição e averbação de indisponibilidade se resolvem no Registro de Imóveis da circunscrição do bem. Os limites da área e a ausência de sobreposição são atestados exclusivamente pelo INCRA, pelo SIGEF. O Cadastro Ambiental Rural, o embargo e o passivo de reserva legal correm no órgão ambiental do estado. Os vícios do leilão são judiciais: nenhum cartório anula arrematação, e nenhum juízo certifica limites.
Três. A área: matrícula antiga descrita por confrontações, sem certificação dos limites pelo INCRA, pode impedir o registro do título depois de o preço estar pago. A ocupação, que na fazenda raramente é só do executado, com arrendatário, parceiro, empregado com moradia e safra plantada por terceiro. E a ambiental: pendência no Cadastro Ambiental Rural ou embargo do IMASUL ou da SEMA impede o uso da área e acompanha o imóvel.
O custo da análise é uma fração do valor do lance, e o prejuízo de um imóvel ocupado ou com hipoteca não intimada é maior que o valor de qualquer análise.
OAB/MS 20.674, sócio nominal e administrador judicial certificado pela TMA Brasil.
Publicado em · Revisado em · 11 min de leituraO rito e os riscos.
Os doze pontos que mudam o lance.
Ato por ato.
Descreva a situação e a equipe da CFH faz a primeira leitura do cenário, do passivo e das garantias envolvidas.