CFH Advogados, Carneiro, Fernandes & Hammarstrom

Matrícula de imóvel desatualizada: o que fazer

Matrícula que não descreve o imóvel real é um problema silencioso até o dia da operação.

Matrícula desatualizada é aquela que não descreve o imóvel como ele é hoje: construção não averbada, área divergente, estado civil antigo do titular, gravame quitado que continua registrado. Cada uma dessas divergências tem uma correção própria, e nenhuma se resolve sozinha com o tempo.

Resumo

  • A averbação atualiza um fato sobre o imóvel ou sobre o titular, sem alterar a descrição essencial do bem nem transferir propriedade.
  • A matrícula desatualizada aparece no pior momento: na assinatura da venda, na análise do banco ou na abertura do inventário.
  • Os erros que mais encarecem a correção de uma matrícula desatualizada vêm de adiar o que o cartório já aceitaria fazer hoje.
  • A retificação de área depende da certificação do georreferenciamento, exigida pela Lei 10.267/2001 para alterações na matrícula de imóvel rural.

Quais divergências aparecem

Quais divergências aparecem
DivergênciaEfeito práticoCorreção usual
Construção não averbadaFinanciamento inviável, venda dificultadaAverbação da construção
Área divergente da realGarantia de alcance incertoRetificação de área
Estado civil desatualizadoExigência do cartório no atoAverbação da alteração
Gravame quitado ainda registradoAparece como ônus na certidãoAverbação do cancelamento
Titular falecidoBloqueio de qualquer transmissãoInventário e registro do formal
Sobreposição com vizinhoDisputa sobre a extensãoRetificação, às vezes judicial

Averbação e retificação: o que muda

A averbação atualiza um fato sobre o imóvel ou sobre o titular, sem alterar a descrição essencial do bem nem transferir propriedade. A retificação corrige a própria descrição, normalmente área e confrontações, e por isso costuma exigir planta, memorial descritivo e, conforme o caso, anuência dos confrontantes.

Quando a via é judicial

  • Quando confrontante se recusa a anuir na retificação
  • Quando há sobreposição de matrículas em disputa
  • Quando existe vício na cadeia dominial
  • Quando o titular registral não pode ser localizado

Quais documentos reunir

  • Matrícula atualizada e certidão de ônus
  • Planta e memorial descritivo assinados por profissional habilitado
  • Documentos pessoais e comprovação de estado civil
  • Comprovação de quitação, quando houver gravame a cancelar
  • Habite-se ou documentação da obra, quando for averbar construção

Riscos de deixar como está

A matrícula desatualizada aparece no pior momento: na assinatura da venda, na análise do banco ou na abertura do inventário. Nessas horas o prazo é curto e a correção passa a ser feita sob pressão, quando poderia ter sido feita com calma.

Erros comuns

Os erros que mais encarecem a correção de uma matrícula desatualizada vêm de adiar o que o cartório já aceitaria fazer hoje.

  • Deixar para averbar a construção só quando surge o comprador
  • Confiar em medição informal, sem profissional habilitado
  • Não cancelar hipoteca já quitada há anos
  • Tratar retificação de área como se fosse simples averbação

Em imóvel rural

A retificação de área depende da certificação do georreferenciamento, exigida pela Lei 10.267/2001 para alterações na matrícula de imóvel rural. Ver regularização de imóvel rural.

Quanto custa corrigir cada tipo de divergência

O custo de corrigir a matrícula varia conforme o tipo de divergência, e a diferença entre as hipóteses é grande: averbação simples paga um emolumento, e retificação de área paga levantamento técnico, certificação e emolumento.

Quanto custa corrigir cada tipo de divergência
DivergênciaO que se pagaQuem presta o serviço
Estado civil ou nome desatualizadoEmolumento de averbaçãoCartório de registro de imóveis
Gravame quitado ainda registradoEmolumento de averbaçãoCartório, com termo do credor
Construção não averbadaDocumento municipal e emolumentoPrefeitura e cartório
Área divergente, imóvel urbanoPlanta, memorial e emolumentoProfissional habilitado e cartório
Área divergente, imóvel ruralLevantamento, certificação e emolumentoProfissional credenciado, INCRA e cartório
Sobreposição em disputaCustas, honorários e períciaJuízo da situação do imóvel

Nenhum desses valores é tabelado em âmbito nacional: emolumentos seguem lei estadual, e o serviço técnico segue o mercado, com preço proporcional à área e ao relevo. O que a comparação mostra é a assimetria. Deixar de averbar hoje o que custa um emolumento pode significar, anos depois, pagar levantamento, perícia e processo.

Averbação ou retificação: a diferença entre corrigir o fato e corrigir a descrição

A diferença entre averbação e retificação está no que cada uma corrige: a averbação anota um fato novo sobre o imóvel ou o titular, e a retificação altera a descrição do próprio bem, como área e confrontações.

A consequência procedimental é inteira. A averbação se resolve com o documento que comprova o fato, apresentado ao cartório. A retificação exige planta e memorial descritivo assinados por profissional habilitado e, conforme a extensão da mudança, a anuência dos confrontantes, porque alterar o limite de um imóvel mexe no do vizinho. Em imóvel rural, a retificação depende da certificação do georreferenciamento pelo INCRA, exigida pela Lei 10.267/2001, e por isso é contada em meses. Quem trata retificação de área como se fosse averbação protocola pedido incompleto, recebe exigência e recomeça; quem trata averbação como se fosse retificação contrata levantamento de que não precisava.

Matrícula rural desatualizada em Mato Grosso do Sul e em Mato Grosso

Em Mato Grosso do Sul e em Mato Grosso, a divergência de matrícula mais frequente no imóvel rural é a de área: a descrição antiga, feita por confrontações, não coincide com o levantamento certificado de hoje.

A correção passa pelo georreferenciamento e pela certificação no INCRA, protocolada na superintendência do estado em que a fazenda está, e pela retificação no cartório da circunscrição do imóvel. Quando o levantamento revela sobreposição com matrícula vizinha, o procedimento deixa de ser documental e passa a depender de acordo entre confrontantes ou de decisão judicial, e é esse o cenário que mais alonga o calendário na região. Há ainda o alinhamento dos cadastros: CCIR no INCRA, cadastro ambiental no órgão do estado, que é diferente em cada um, e declaração do imposto territorial na Receita Federal. Área corrigida na matrícula e não corrigida nos cadastros reabre o mesmo problema na operação seguinte.

Como ler a matrícula para encontrar a divergência

A divergência se encontra comparando a descrição registrada na matrícula com o imóvel real, e a leitura segue uma ordem: titular, área, confrontações, construções e gravames.

  • Titular: confira se quem consta como proprietário é quem se apresenta como tal, e se houve óbito, casamento ou mudança de nome depois do último ato
  • Área: compare o número da matrícula com o do CCIR, o da declaração do imposto territorial e o do levantamento, quando existir
  • Confrontações: verifique se os confrontantes descritos ainda são os atuais, porque confrontação antiga é indício de descrição defasada
  • Construções: veja se a matrícula menciona edificação e se a descrição corresponde ao que existe no terreno
  • Gravames: liste cada hipoteca, alienação fiduciária, penhora e indisponibilidade, com data, e procure a averbação de cancelamento dos que já foram quitados

O resultado dessa leitura é uma lista de pendências com o caminho de cada uma, e é ela que define se a correção é de dias ou de meses. Sem essa lista, o proprietário descobre a divergência no balcão do cartório, com o negócio já em andamento.

Leitura relacionada

Este conteúdo integra a área de Imóvel rural.

Conteúdo informativo. Cada caso é avaliado individualmente, a partir dos documentos e das garantias envolvidas, e nada aqui substitui a análise do caso concreto nem representa promessa de resultado.

Perguntas frequentes

Averbar construção é obrigatório?

É o que faz a matrícula descrever o imóvel como ele é. Sem a averbação, o bem continua registrado como terreno, o que inviabiliza financiamento e dificulta a venda.

Retificação de área precisa de anuência dos vizinhos?

Em muitas hipóteses sim, sobretudo quando a correção altera limites. A recusa costuma deslocar o procedimento para a via judicial.

Quanto tempo leva corrigir a matrícula?

O prazo da correção depende do tipo de correção, da via aplicável e da necessidade de anuências ou de certificação. Averbações simples são rápidas; retificações de área, não.

Posso vender com a matrícula desatualizada?

Pode haver negócio, mas o comprador assume risco e o financiamento costuma ser inviável. Na prática, a divergência reduz o preço ou trava a operação.

Quem pode assinar a planta e o memorial descritivo?

Profissional habilitado, e é a assinatura dele que o cartório exige na retificação de área. Medição informal não serve, e refazer o levantamento significa novo custo e novo prazo.

O cartório pode fazer exigências no meio do procedimento?

A exigência vem por escrito e interrompe o procedimento até ser cumprida, e o prazo recomeça depois disso. É o que torna o diagnóstico prévio mais barato do que a tentativa por aproximação.

Quem arca com a correção quando a divergência aparece na véspera da venda?

O custo recai, na prática, sobre quem tem o negócio travado, em geral o vendedor. Feita com calma, antes de anunciar, a mesma correção sai mais barata e sem pressão de prazo.

Retrato de Patrick Hammarstrom

Responsável pelo conteúdo

Patrick Hammarstrom

OAB/MS 20.674, sócio nominal e administrador judicial certificado pela TMA Brasil.

Publicado em · Revisado em · 7 min de leitura
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