Guia dos documentos imobiliários
A tabela completa dos documentos.
Três documentos, três funções. Só um deles transfere a propriedade.
A escritura formaliza o negócio no cartório de notas. A matrícula é o cadastro do imóvel no cartório de registro de imóveis, onde fica sua história inteira. O registro é o ato que leva o título à matrícula e transfere a propriedade. Ter escritura e não registrar significa, perante a lei, não ser o dono.
Resumo
| Documento | Onde é feito | O que faz | O que não faz |
|---|---|---|---|
| Escritura pública | Cartório de notas | Formaliza o negócio entre as partes | Não transfere a propriedade |
| Matrícula | Cartório de registro de imóveis | Concentra a história jurídica do imóvel | Não é documento de negócio |
| Registro | Cartório de registro de imóveis | Transfere a propriedade | Não corrige vício do título |
| Averbação | Cartório de registro de imóveis | Atualiza fato sobre o imóvel ou o titular | Não transfere propriedade |
Porque a lei assim determina. O art. 1.245 do Código Civil estabelece que a propriedade imóvel se transfere entre vivos mediante o registro do título translativo, e que enquanto não se registrar, o alienante continua a ser havido como dono. A sistemática dos registros públicos está na Lei 6.015/1973.
Quem compra confiando apenas na escritura corre o risco de descobrir que o vendedor nunca registrou a aquisição dele próprio, e portanto não era o proprietário. Quem vende sem verificar a matrícula pode descobrir gravames que travam o negócio na véspera da assinatura.
Em venda, financiamento, integralização em holding, inventário e constituição de garantia. Todos esses caminhos passam pela matrícula, e é por isso que a regularização de imóvel rural costuma anteceder a operação, e não sucedê-la.
Para ser registrada, a escritura precisa descrever o imóvel como a matrícula o descreve, identificar as partes com a qualificação exigida e vir acompanhada da prova do imposto da transmissão.
O registrador confere, entre outros pontos, a continuidade registral, isto é, se quem transmite é quem consta da matrícula como proprietário; a disponibilidade do bem, ou seja, se não há indisponibilidade ou gravame que impeça o ato; a especialidade, que é a correspondência entre o imóvel do título e o do registro; e o recolhimento do imposto. Faltando um desses elementos vem a exigência por escrito, e o título fica pendente. Em imóvel rural acrescentam-se o CCIR, a prova de quitação do imposto territorial e a certificação do georreferenciamento, exigida pela Lei 10.267/2001. É por isso que escritura perfeita entre as partes pode ser imprópria para registro: o que a torna registrável não é o acordo, é a conformidade com a matrícula.
Escritura, registro e averbação são atos cobrados separadamente, cada um pela sua tabela: a escritura paga emolumentos ao tabelionato, o registro paga ao registro de imóveis, e o imposto de transmissão vai ao município.
| Ato | A quem se paga | Como o valor se forma |
|---|---|---|
| Escritura pública | Cartório de notas | Tabela estadual de emolumentos, pelo valor do negócio |
| Registro do título | Cartório de registro de imóveis | Tabela estadual, pelo valor do negócio |
| Averbação | Cartório de registro de imóveis | Tabela estadual, por ato praticado |
| Imposto de transmissão | Município do imóvel | Legislação municipal |
| Certidões | Cartórios e órgãos públicos | Por documento emitido |
Quem paga cada parcela é, em princípio, matéria de contrato: a lei não impede que as partes dividam, e a prática do mercado costuma atribuir ao comprador o imposto e o registro. O que não se negocia é a ordem. Sem o imposto recolhido não há registro, e sem registro não há transferência de propriedade, por completa que seja a escritura.
A diferença entre a escritura pública e o instrumento particular está na forma que a lei exige: acima de determinado valor, a escritura pública é obrigatória para a transmissão de imóvel, salvo as exceções legais.
O Código Civil fixa esse limite em trinta salários mínimos de valor do imóvel, e abaixo dele admite outras formas. Fora disso, existem instrumentos particulares que a própria lei equipara à escritura para fins de registro, como ocorre em operações do sistema de financiamento imobiliário e em títulos previstos em leis específicas. A consequência prática é a mesma nos dois casos: o documento é título, e o que transfere a propriedade continua sendo o registro na matrícula. Confundir forma com efeito é o que produz o comprador que tem o papel certo e não tem o imóvel, porque guardou o título em vez de levá-lo ao registro de imóveis.
A diferença entre os cartórios de Mato Grosso do Sul e de Mato Grosso não está na lei do registro, que é federal, e sim na tabela de emolumentos e nas normas de serviço editadas pela corregedoria de cada tribunal.
Na prática, isso significa custo diferente para o mesmo ato e exigências de forma que variam de um estado para o outro, sobretudo quanto a documentos complementares e a procedimentos de retificação. A competência continua territorial: cada imóvel se registra no cartório da circunscrição em que está situado, e nenhuma escritura lavrada em outra cidade muda isso. Para a família com imóvel urbano em Dourados e fazenda em Mato Grosso, o efeito é operacional: dois protocolos, duas tabelas, dois prazos e, no caso rural, duas superintendências do INCRA. O planejamento do negócio considera o cartório mais lento, porque a transmissão só se completa quando o último registro é praticado.
Este conteúdo integra a área de Imóvel rural.
Conteúdo informativo. Cada caso é avaliado individualmente, a partir dos documentos e das garantias envolvidas, e nada aqui substitui a análise do caso concreto nem representa promessa de resultado.
Vale entre as partes como título, mas não transfere a propriedade. Sem registro, o vendedor continua sendo o proprietário para todos os efeitos legais.
A matrícula é a forma atual de individualização do imóvel no registro. Imóveis antigos podem estar em transcrições anteriores ao sistema atual, o que exige análise específica.
O registro de contrato particular depende do tipo de negócio e dos requisitos legais. Em muitos casos exige-se escritura pública, sobretudo acima de determinado valor, salvo as exceções previstas em lei.
No cartório de registro de imóveis da circunscrição onde o imóvel está situado. A competência é territorial e não se escolhe.
O cartório pratica o ato ou formula exigências por escrito dentro do prazo legal contado da prenotação, e a prenotação garante a prioridade do título nesse período. Exigência cumprida faz a contagem recomeçar.
Averbação é o ato que atualiza um fato sobre o imóvel ou sobre o titular, como uma construção concluída, uma quitação ou uma mudança de estado civil. Ela não transfere propriedade, efeito que só o registro do título translativo produz.
Pelo primeiro ato, em sequência e sem pular, identificando cada transmissão e marcando os gravames com data e credor. Ler apenas o último ato esconde tanto gravame vivo quanto cancelamento que nunca foi averbado.
OAB/MS 20.674, sócio nominal e administrador judicial certificado pela TMA Brasil.
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Quando a matrícula não reflete a realidade.
Patrimônio, garantias e registro.
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