CFH Advogados, Carneiro, Fernandes & Hammarstrom

Escritura, matrícula e registro: diferenças

Três documentos, três funções. Só um deles transfere a propriedade.

A escritura formaliza o negócio no cartório de notas. A matrícula é o cadastro do imóvel no cartório de registro de imóveis, onde fica sua história inteira. O registro é o ato que leva o título à matrícula e transfere a propriedade. Ter escritura e não registrar significa, perante a lei, não ser o dono.

Resumo

  • Quem compra confiando apenas na escritura corre o risco de descobrir que o vendedor nunca registrou a aquisição dele próprio, e portanto não era o proprietário.
  • Em venda, financiamento, integralização em holding, inventário e constituição de garantia.
  • Para ser registrada, a escritura precisa descrever o imóvel como a matrícula o descreve, identificar as partes com a qualificação exigida e vir acompanhada da prova do imposto da transmissão.
  • Escritura, registro e averbação são atos cobrados separadamente, cada um pela sua tabela: a escritura paga emolumentos ao tabelionato, o registro paga ao registro de imóveis, e o imposto de transmissão vai ao município.

A diferença em uma tabela

A diferença em uma tabela
DocumentoOnde é feitoO que fazO que não faz
Escritura públicaCartório de notasFormaliza o negócio entre as partesNão transfere a propriedade
MatrículaCartório de registro de imóveisConcentra a história jurídica do imóvelNão é documento de negócio
RegistroCartório de registro de imóveisTransfere a propriedadeNão corrige vício do título
AverbaçãoCartório de registro de imóveisAtualiza fato sobre o imóvel ou o titularNão transfere propriedade

Por que só o registro transfere

Porque a lei assim determina. O art. 1.245 do Código Civil estabelece que a propriedade imóvel se transfere entre vivos mediante o registro do título translativo, e que enquanto não se registrar, o alienante continua a ser havido como dono. A sistemática dos registros públicos está na Lei 6.015/1973.

Como ler uma matrícula

  • Comece pelo primeiro ato e leia em sequência, sem pular
  • Identifique cada transmissão: quem vendeu, para quem, quando
  • Marque os gravames: hipoteca, alienação fiduciária, penhora, indisponibilidade
  • Confira se algum gravame antigo foi cancelado por averbação
  • Compare a descrição do imóvel com a realidade

Riscos de confundir

Quem compra confiando apenas na escritura corre o risco de descobrir que o vendedor nunca registrou a aquisição dele próprio, e portanto não era o proprietário. Quem vende sem verificar a matrícula pode descobrir gravames que travam o negócio na véspera da assinatura.

Erros comuns

  • Chamar a escritura de registro e vice-versa
  • Usar certidão de ônus antiga em negócio recente
  • Ler apenas o último ato da matrícula
  • Presumir que a quitação cancelou o gravame sozinha

Onde isso aparece na prática

Em venda, financiamento, integralização em holding, inventário e constituição de garantia. Todos esses caminhos passam pela matrícula, e é por isso que a regularização de imóvel rural costuma anteceder a operação, e não sucedê-la.

Que requisitos a escritura precisa cumprir para ser registrada

Para ser registrada, a escritura precisa descrever o imóvel como a matrícula o descreve, identificar as partes com a qualificação exigida e vir acompanhada da prova do imposto da transmissão.

O registrador confere, entre outros pontos, a continuidade registral, isto é, se quem transmite é quem consta da matrícula como proprietário; a disponibilidade do bem, ou seja, se não há indisponibilidade ou gravame que impeça o ato; a especialidade, que é a correspondência entre o imóvel do título e o do registro; e o recolhimento do imposto. Faltando um desses elementos vem a exigência por escrito, e o título fica pendente. Em imóvel rural acrescentam-se o CCIR, a prova de quitação do imposto territorial e a certificação do georreferenciamento, exigida pela Lei 10.267/2001. É por isso que escritura perfeita entre as partes pode ser imprópria para registro: o que a torna registrável não é o acordo, é a conformidade com a matrícula.

Quanto custa cada ato, e quem paga o quê

Escritura, registro e averbação são atos cobrados separadamente, cada um pela sua tabela: a escritura paga emolumentos ao tabelionato, o registro paga ao registro de imóveis, e o imposto de transmissão vai ao município.

Quanto custa cada ato, e quem paga o quê
AtoA quem se pagaComo o valor se forma
Escritura públicaCartório de notasTabela estadual de emolumentos, pelo valor do negócio
Registro do títuloCartório de registro de imóveisTabela estadual, pelo valor do negócio
AverbaçãoCartório de registro de imóveisTabela estadual, por ato praticado
Imposto de transmissãoMunicípio do imóvelLegislação municipal
CertidõesCartórios e órgãos públicosPor documento emitido

Quem paga cada parcela é, em princípio, matéria de contrato: a lei não impede que as partes dividam, e a prática do mercado costuma atribuir ao comprador o imposto e o registro. O que não se negocia é a ordem. Sem o imposto recolhido não há registro, e sem registro não há transferência de propriedade, por completa que seja a escritura.

Escritura pública ou instrumento particular: a diferença entre as formas

A diferença entre a escritura pública e o instrumento particular está na forma que a lei exige: acima de determinado valor, a escritura pública é obrigatória para a transmissão de imóvel, salvo as exceções legais.

O Código Civil fixa esse limite em trinta salários mínimos de valor do imóvel, e abaixo dele admite outras formas. Fora disso, existem instrumentos particulares que a própria lei equipara à escritura para fins de registro, como ocorre em operações do sistema de financiamento imobiliário e em títulos previstos em leis específicas. A consequência prática é a mesma nos dois casos: o documento é título, e o que transfere a propriedade continua sendo o registro na matrícula. Confundir forma com efeito é o que produz o comprador que tem o papel certo e não tem o imóvel, porque guardou o título em vez de levá-lo ao registro de imóveis.

Cartórios de Mato Grosso do Sul e de Mato Grosso: o que muda na prática

A diferença entre os cartórios de Mato Grosso do Sul e de Mato Grosso não está na lei do registro, que é federal, e sim na tabela de emolumentos e nas normas de serviço editadas pela corregedoria de cada tribunal.

Na prática, isso significa custo diferente para o mesmo ato e exigências de forma que variam de um estado para o outro, sobretudo quanto a documentos complementares e a procedimentos de retificação. A competência continua territorial: cada imóvel se registra no cartório da circunscrição em que está situado, e nenhuma escritura lavrada em outra cidade muda isso. Para a família com imóvel urbano em Dourados e fazenda em Mato Grosso, o efeito é operacional: dois protocolos, duas tabelas, dois prazos e, no caso rural, duas superintendências do INCRA. O planejamento do negócio considera o cartório mais lento, porque a transmissão só se completa quando o último registro é praticado.

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Este conteúdo integra a área de Imóvel rural.

Conteúdo informativo. Cada caso é avaliado individualmente, a partir dos documentos e das garantias envolvidas, e nada aqui substitui a análise do caso concreto nem representa promessa de resultado.

Perguntas frequentes

Escritura vale sem registro?

Vale entre as partes como título, mas não transfere a propriedade. Sem registro, o vendedor continua sendo o proprietário para todos os efeitos legais.

Todo imóvel tem matrícula?

A matrícula é a forma atual de individualização do imóvel no registro. Imóveis antigos podem estar em transcrições anteriores ao sistema atual, o que exige análise específica.

Contrato particular pode ser registrado?

O registro de contrato particular depende do tipo de negócio e dos requisitos legais. Em muitos casos exige-se escritura pública, sobretudo acima de determinado valor, salvo as exceções previstas em lei.

Onde consigo a matrícula?

No cartório de registro de imóveis da circunscrição onde o imóvel está situado. A competência é territorial e não se escolhe.

Quanto tempo o cartório leva para registrar o título?

O cartório pratica o ato ou formula exigências por escrito dentro do prazo legal contado da prenotação, e a prenotação garante a prioridade do título nesse período. Exigência cumprida faz a contagem recomeçar.

O que é averbação, afinal?

Averbação é o ato que atualiza um fato sobre o imóvel ou sobre o titular, como uma construção concluída, uma quitação ou uma mudança de estado civil. Ela não transfere propriedade, efeito que só o registro do título translativo produz.

Por onde começar a leitura de uma matrícula longa?

Pelo primeiro ato, em sequência e sem pular, identificando cada transmissão e marcando os gravames com data e credor. Ler apenas o último ato esconde tanto gravame vivo quanto cancelamento que nunca foi averbado.

Retrato de Patrick Hammarstrom

Responsável pelo conteúdo

Patrick Hammarstrom

OAB/MS 20.674, sócio nominal e administrador judicial certificado pela TMA Brasil.

Publicado em · Revisado em · 6 min de leitura
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