Garantias do crédito rural
Cada instrumento em detalhe.
A garantia não é um detalhe do crédito. É o que define a classe, o voto e o desenho do plano.
Na recuperação judicial rural, a garantia define a classe do crédito, e a classe define o poder de voto e o tratamento no plano. Por isso o mapeamento das garantias antecede qualquer proposta: é ele que mostra com quem, de fato, é preciso negociar.
Resumo
| Garantia | Efeito usual no quadro | O que exige verificação |
|---|---|---|
| Hipoteca | Garantia real até o valor do bem | Grau do registro e avaliação |
| Penhor rural | Garantia real sobre bem móvel | Registro e alcance sobre a safra |
| Alienação fiduciária | Regime próprio, não sujeito em regra | Essencialidade do bem |
| Cessão fiduciária de recebíveis | Regime próprio, retém fluxo | Percentual e contratos vinculados |
| Sem garantia real | Quirografário | Composição da classe III |
| Aval ou fiança | Não altera a classe do crédito | Exposição do patrimônio do garantidor |
Quando o valor do bem não cobre o crédito garantido, o excedente tende a ser tratado como quirografário. Isso desloca parte do crédito para outra classe e muda a aritmética da assembleia. É um dos pontos que mais gera impugnação.
Garantias constituídas às pressas na véspera da crise costumam ser questionadas. Do outro lado, deixar de mapear as existentes leva a um plano desenhado sobre premissas erradas, que não se sustenta na assembleia.
O funcionamento de cada garantia fora do processo está em garantias do crédito rural, e o limite imposto ao credor que não se sujeita ao plano, em bens essenciais na recuperação.
Com as classes bem formadas, o plano passa a ser negociável. A estrutura das classes e da assembleia está no guia da recuperação judicial do produtor rural.
Cada garantia só produz o efeito que a lei lhe dá se tiver sido constituída e registrada na forma própria, e quem verifica isso na recuperação judicial é o administrador judicial, sob decisão do juízo.
| Garantia | Requisito de constituição | Onde se verifica |
|---|---|---|
| Hipoteca | Instrumento escrito e registro na matrícula | Cartório de registro de imóveis |
| Penhor rural | Instrumento e registro próprio do bem | Registro competente, conforme o bem |
| Alienação fiduciária de imóvel | Contrato e registro na matrícula | Cartório de registro de imóveis |
| Alienação fiduciária de máquina | Contrato e registro do bem financiado | Registro do próprio bem |
| Cessão fiduciária de recebíveis | Identificação dos créditos e registro | Cartório de títulos e documentos |
| Aval e fiança | Assinatura no título ou no contrato | O próprio título, sem registro |
O administrador judicial confere essa cadeia documento por documento, e é dela que sai a classificação de cada crédito no quadro de credores. Garantia afirmada pelo credor e não comprovada no registro é o ponto que mais gera divergência e impugnação, e é também o que mais muda a aritmética da assembleia.
A discussão das garantias na recuperação judicial rural tem prazo certo e custo próprio: o prazo é o do edital, para habilitação e divergência, e o custo é o da avaliação dos bens que sustentam a classificação.
Publicado o edital com a relação de credores, abre-se o período para que cada credor habilite o seu crédito ou apresente divergência quanto ao valor e à classe; perdido esse prazo, o caminho é a impugnação, mais estreita. A avaliação dos bens gravados custa laudo, e é ela que define até onde o crédito é garantido e de onde em diante o excedente passa a ser quirografário. Há ainda o custo de obter os registros: certidões de matrícula de cada área, comprovantes de registro de penhor e de alienação fiduciária, extratos das retenções de recebíveis. Esse levantamento é trabalho de semanas, e feito depois do pedido atrasa o processo inteiro, porque sem ele a relação de credores sai errada.
A diferença entre garantia real e garantia fiduciária decide a sujeição à recuperação judicial: a real põe o crédito em classe própria do concurso, e a fiduciária, em regra, o mantém fora dele.
Na hipoteca e no penhor, o credor integra a classe com garantia real até o valor do bem, participa da assembleia e se submete ao plano. Na alienação fiduciária e na cessão fiduciária, a propriedade ou a titularidade do crédito é do credor, e o regime é próprio, com a ressalva dos bens essenciais à atividade durante o stay period. No passivo típico de Mato Grosso do Sul e de Mato Grosso, as duas naturezas convivem: hipoteca da fazenda e penhor da safra no crédito bancário, alienação fiduciária no maquinário, cessão fiduciária nos recebíveis da trading. O efeito é que parte relevante da dívida do produtor da região fica fora do concurso, e por isso o plano precisa ser negociado dentro e fora dele ao mesmo tempo.
A classificação do crédito na recuperação judicial rural é decidida pelo juízo, a partir da relação apresentada pelo devedor, das habilitações e divergências dos credores e da conferência feita pelo administrador judicial.
O administrador examina os documentos de cada operação e confronta o que o credor alega com o que está registrado, e é no cartório que essa conferência se completa: a matrícula mostra hipoteca e alienação fiduciária de imóvel, o registro próprio mostra o penhor, e o cartório de títulos e documentos mostra a cessão fiduciária de recebíveis. Com esse material, o quadro geral de credores se forma e se publica, e a partir dele corre a impugnação, decidida pelo juízo. Garantia que o credor afirma e não comprova no registro competente tende a ser classificada como crédito sem garantia real, com efeito direto no voto da assembleia. É por isso que o levantamento registral do devedor precisa estar pronto antes do pedido.
Este conteúdo integra a área de Recuperação judicial do produtor rural.
Conteúdo informativo. Cada caso é avaliado individualmente, a partir dos documentos e das garantias envolvidas, e nada aqui substitui a análise do caso concreto nem representa promessa de resultado.
Não. São classes distintas, que deliberam separadamente na assembleia, nos termos da lei.
Não. Ela recai sobre recebíveis, e não sobre o imóvel. Por isso costuma passar despercebida em levantamentos feitos apenas pela certidão de ônus.
Pode ser questionada conforme as circunstâncias e as regras aplicáveis. É ponto sensível, que exige análise da data e do contexto da constituição.
O aval é garantia pessoal e não altera a classe do crédito. A exposição do patrimônio do avalista é analisada em separado.
Continua. A recuperação não desconstitui garantia regularmente constituída; o que muda é o tratamento do crédito no plano, conforme a garantia sujeite ou não o credor aos efeitos da recuperação.
Quando o valor do bem não cobre o crédito garantido, o excedente tende a ser tratado como quirografário, e isso depende da avaliação do bem. É um dos pontos que mais gera impugnação, porque muda a aritmética da assembleia.
No registro próprio do bem gravado, conforme a natureza dele, e o comprovante desse registro integra a análise de cada operação. Penhor sem registro deixa o credor em posição mais frágil, o que repercute na classificação do crédito.
Garantia prestada por terceiro não altera a classe do crédito no quadro de credores, e a exposição do patrimônio de quem garantiu se analisa em separado. É o mesmo raciocínio que vale para aval e fiança.
OAB/MS 19.237, advogado e administrador judicial credenciado pela TMA Brasil.
Publicado em · Revisado em · 7 min de leituraCada instrumento em detalhe.
O título e sua estrutura.
Classes e assembleia.
Descreva a situação e a equipe da CFH faz a primeira leitura do cenário, do passivo e das garantias envolvidas.