CFH Advogados, Carneiro, Fernandes & Hammarstrom

Quem pode pedir recuperação judicial como produtor rural?

O requisito não é o tamanho da propriedade, e sim o exercício comprovado da atividade rural empresarial.

Pode pedir recuperação judicial o produtor rural que exerce a atividade de forma empresarial e comprova esse exercício pelo prazo exigido em lei. Vale tanto para pessoa física quanto para pessoa jurídica. O que a Lei 14.112/2020 mudou foi a amplitude das formas admitidas de comprovação.

Resumo

  • Exercício de atividade rural empresarial pelo prazo previsto na Lei 11.101/2005.
  • Ampliou as formas admitidas de comprovação da atividade rural, alcançando situações históricas de produtores que exerciam a atividade há anos sem registro formal anterior ao início da crise.
  • Pedido mal instruído tende a ser indeferido, e o indeferimento consome tempo em um cenário no qual as execuções continuam correndo.
  • Quando o passivo ainda comporta tratativa direta, o caminho costuma ser o alongamento de dívida.

Qual é o requisito

Exercício de atividade rural empresarial pelo prazo previsto na Lei 11.101/2005. Não é o porte da área nem o volume de faturamento que define o acesso, e sim a natureza empresarial da atividade e sua continuidade demonstrada.

Pessoa física e pessoa jurídica

Pessoa física e pessoa jurídica
PerfilComo costuma se apresentarPonto de atenção
Produtor rural pessoa físicaInscrição estadual de produtor, declaração de ITR e movimentação bancáriaComprovação do exercício pelo prazo legal
Produtor rural com registro empresarialInscrição na Junta ComercialData do registro em relação à crise
Sociedade ruralContrato social e escrituraçãoRegularidade das demonstrações contábeis
Grupo familiarVárias inscrições ligadas à mesma exploraçãoDelimitação de quem é o devedor

O que a Lei 14.112/2020 mudou

Ampliou as formas admitidas de comprovação da atividade rural, alcançando situações históricas de produtores que exerciam a atividade há anos sem registro formal anterior ao início da crise. Antes disso, a ausência de registro prévio funcionava, na prática, como barreira de acesso.

Quais documentos comprovam a atividade

  • Inscrição estadual de produtor rural e sua data
  • Declarações do Imposto sobre a Propriedade Territorial Rural
  • Notas fiscais de venda de produção ao longo dos anos
  • Contratos de comercialização, arrendamento ou parceria
  • Registro na Junta Comercial, quando houver
  • Escrituração e demonstrações contábeis

Riscos de pedir sem preparo

Pedido mal instruído tende a ser indeferido, e o indeferimento consome tempo em um cenário no qual as execuções continuam correndo. A instrução documental é o que sustenta o deferimento do processamento e, com ele, o stay period.

Erros comuns

  • Presumir que a inscrição recente resolve o requisito de prazo
  • Pedir em nome da pessoa errada dentro do grupo familiar
  • Apresentar relação de credores incompleta
  • Deixar de reunir a comprovação da atividade antes da petição

Antes de chegar aqui

Quando o passivo ainda comporta tratativa direta, o caminho costuma ser o alongamento de dívida. A comparação entre as vias está em alongamento de dívida e recuperação judicial.

Quanto custa preparar e sustentar o pedido

Preparar o pedido custa o levantamento do passivo, a reunião da prova da atividade e o trabalho contábil das demonstrações exigidas; sustentá-lo custa custas, administrador judicial e acompanhamento durante o processo.

Quanto custa preparar e sustentar o pedido
ParcelaO que entraQuando ocorre
Prova da atividade ruralObtenção de declarações, notas e contratos de anos anterioresAntes da petição
Demonstrações contábeisTrabalho contábil, frequente em produtor com escrituração simplificadaAntes da petição
Levantamento registralCertidões de matrícula e de ônus de cada áreaAntes da petição
Custas e publicaçõesCustas do juízo e editaisNo ajuizamento e no curso
Administrador judicialRemuneração fixada pelo juízoAo longo do processo
Perícia préviaHonorários do perito, quando determinadaAntes do deferimento
Relatórios periódicosEscrituração e demonstrações durante o processoMensal

Nenhum desses valores é tabelado, e todos variam com o tamanho do passivo e com o número de credores e de áreas. O ponto que o produtor rural dimensiona antes de decidir é que o pedido exige caixa para a sua própria instrução, e que a maior parte desse custo se concentra antes do protocolo, exatamente na etapa que define se ele será deferido.

Produtor pessoa física, sociedade rural ou grupo familiar: quem figura como devedor

Em exploração familiar, três configurações concorrem para figurar como devedor: o produtor rural pessoa física, a sociedade rural registrada e o conjunto de inscrições ligadas à mesma exploração.

Produtor pessoa física, sociedade rural ou grupo familiar: quem figura como devedor
PerfilComo se apresentaO ponto que decide
Produtor pessoa físicaInscrição estadual, declarações e notas em nome próprioProva do exercício pelo prazo legal
Produtor com registro empresarialInscrição na Junta ComercialData do registro em relação à crise
Sociedade ruralContrato social e escrituraçãoRegularidade das demonstrações contábeis
Grupo familiar com várias inscriçõesÁreas e cédulas em nomes diferentesDelimitação de quem é o devedor

A diferença entre elas não é de formalidade: é de passivo e de patrimônio alcançados. Pedir em nome da pessoa errada dentro do grupo deixa fora do processo parte das dívidas e parte dos bens, e é uma das causas mais comuns de pedido que não se sustenta. A definição vem antes da petição, com as cédulas e as inscrições na mesa, e considera quem assinou cada operação e quem prestou aval em cada uma.

O que o juízo examina ao decidir o processamento

Ao decidir o processamento, o juízo examina a regularidade formal do pedido, a comprovação do exercício da atividade rural empresarial pelo prazo legal e a documentação que a lei exige na instrução.

Entram nesse exame a relação nominal de credores com a natureza e a classificação de cada crédito, a relação de bens, as demonstrações contábeis na forma exigida, os extratos bancários e a lista de ações e execuções em curso. Conforme o caso, o juízo determina perícia prévia para constatar as condições de funcionamento da atividade, e é com base nela e nos documentos que defere ou não o processamento. Deferido, nomeia administrador judicial, manda publicar o edital, e as execuções ficam suspensas pelo stay period. Indeferido, o pedido é extinto e as cobranças seguem onde estavam, com a diferença de que o tempo gasto na tentativa não volta. É essa assimetria que justifica a instrução cuidadosa antes do protocolo.

Produtores de Mato Grosso do Sul e de Mato Grosso: o que pesa no requisito

Em Mato Grosso do Sul e em Mato Grosso, o que mais pesa na comprovação do requisito é a forma como a exploração foi conduzida: muita área explorada por arrendamento e por parceria, e cédulas em nomes distintos.

Produtor que planta em área arrendada comprova a atividade pelos contratos e pelas notas de venda da produção, e não pela titularidade da terra, porque o requisito é o exercício da atividade rural empresarial. Em grupo familiar com áreas nos dois estados, as inscrições estaduais são de unidades federativas diferentes, e o conjunto documental precisa mostrar que a exploração é a mesma. Soma-se a dispersão registral, com matrículas em comarcas distintas e certificação em duas superintendências do INCRA. Para o produtor da região de Dourados que expandiu para o norte, a reunião da prova é mais trabalhosa, e começar por ela é o que evita o indeferimento, que consome o tempo em que as execuções continuam correndo.

Leitura relacionada

Este conteúdo integra a área de Recuperação judicial do produtor rural.

Conteúdo informativo. Cada caso é avaliado individualmente, a partir dos documentos e das garantias envolvidas, e nada aqui substitui a análise do caso concreto nem representa promessa de resultado.

Perguntas frequentes

Precisa ter empresa registrada?

Não necessariamente. O produtor rural pessoa física pode requerer, desde que comprove o exercício da atividade rural empresarial pelo prazo exigido em lei, por meios admitidos após a Lei 14.112/2020.

Arrendatário pode pedir?

O requisito é o exercício da atividade rural empresarial, e não a propriedade da terra. A situação do arrendatário exige análise da documentação da exploração e dos contratos.

Quanto tempo de atividade é exigido?

A lei fixa prazo mínimo de exercício da atividade. A verificação depende da documentação apresentada e da data que ela comprova, o que precisa ser avaliado caso a caso.

O pedido pode ser indeferido?

Pode, especialmente por instrução deficiente ou por não demonstração do requisito de atividade. Por isso a fase de reunião documental antecede a petição.

Quem decide se o requisito de atividade está preenchido?

O juízo a quem o pedido é distribuído decide sobre o deferimento do processamento, a partir da documentação apresentada e da manifestação que o caso exigir. É por isso que a instrução documental vem antes da petição.

Pecuarista e parceiro agrícola também podem pedir?

O requisito é o exercício da atividade rural empresarial, e não a cultura explorada nem a forma de uso da terra. Pecuária e parceria entram na análise pela documentação da exploração e pelos contratos, caso a caso.

O que acontece com as execuções enquanto o pedido é analisado?

As execuções continuam correndo até o deferimento do processamento, que é o marco a partir do qual o stay period produz efeito. Esse intervalo é a razão pela qual pedido mal instruído custa caro.

Retrato de Rômulo Almeida Carneiro

Responsável pelo conteúdo

Rômulo Almeida Carneiro

OAB/MS 15.746, sócio-fundador e administrador judicial credenciado pela TMA Brasil.

Publicado em · Revisado em · 7 min de leitura
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