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Recuperação judicial no agronegócio: o que produtores rurais precisam saber em 2026

Foram 1.990 pedidos de recuperação judicial ligados ao setor rural em 2025, alta de 56,4%. O que o produtor precisa saber.

Máquina agrícola em lavoura, em operação de campo
Foto: Furkan Alakoç / Pexels

O agronegócio brasileiro registrou forte alta nos pedidos de recuperação judicial, e o produtor rural pessoa física passou a ter caminho próprio depois da Lei 14.112/2020. O que decide o acesso é a comprovação da atividade rural por mais de dois anos e a inscrição na Junta Comercial no momento do pedido, com a documentação da atividade organizada.

O agronegócio brasileiro atravessa um dos momentos mais desafiadores dos últimos anos do ponto de vista financeiro. Os números confirmam a gravidade do cenário: em 2025, foram registrados 1.990 pedidos de recuperação judicial ligados ao setor rural, um crescimento de 56,4% em relação ao ano anterior. Diante desse quadro, a recuperação judicial, instrumento antes associado quase exclusivamente a grandes empresas urbanas, consolidou-se como ferramenta jurídica legítima e cada vez mais utilizada por produtores rurais para reorganizar suas dívidas e preservar a atividade produtiva.

O produtor rural pode pedir recuperação judicial?

A resposta é sim, mas sujeita a requisitos específicos que o Superior Tribunal de Justiça (STJ) vem, ao longo dos últimos anos, delineando com precisão cada vez maior. O produtor rural pessoa física é equiparado ao empresário para fins da Lei 11.101/2005 (Lei de Recuperação Judicial e Falências), com as alterações trazidas pela Lei 14.112/2020, que modernizou significativamente o regime recuperacional brasileiro, inclusive no que diz respeito ao produtor rural.

O julgamento do Tema Repetitivo 1145 pelo STJ (REsp 1.905.573) consolidou os requisitos centrais: o produtor deve comprovar o exercício profissional da atividade econômica rural organizada, para produção ou circulação de bens ou serviços, por mais de dois anos, e estar inscrito na Junta Comercial no momento do pedido de recuperação judicial. Um ponto importante esclarecido pelo Tribunal é que não existe exigência de que essa inscrição tenha ocorrido dois anos antes do pedido, a atividade exercida antes do registro formal pode ser considerada para completar o biênio, uma vez que a inscrição tem natureza declaratória, e não constitutiva, da condição de empresário. Essa flexibilização ampliou consideravelmente o acesso de produtores rurais ao instituto, especialmente daqueles que regularizaram sua situação perante a Junta Comercial mais recentemente, mas já exerciam a atividade rural organizada há mais tempo.

O Provimento CNJ 216/2026: uniformização de regras em todo o país

Reconhecendo o crescimento expressivo das ações envolvendo produtores rurais e a heterogeneidade de entendimentos entre os tribunais estaduais, o Conselho Nacional de Justiça editou, em 2026, o Provimento nº 216, estabelecendo diretrizes uniformes para o processamento de recuperação judicial e falência do produtor rural em todo o território nacional.

Entre os pontos centrais da norma está a exigência de um conjunto documental específico, que leva em conta as particularidades da atividade rural, os ciclos agrícolas e a dependência de fatores climáticos, incluindo laudos sobre condições operacionais, maquinário e garantias envolvendo safras e semoventes. O provimento também disciplina a análise contínua de viabilidade da atividade produtiva, prevendo que os relatórios mensais de administração (RMA) contenham seções específicas sobre o ciclo rural, os insumos utilizados e os riscos identificados no curso do processo. Além disso, a norma consolida o tratamento de créditos extraconcursais, como aqueles vinculados a CPR, contratos cooperativos e propriedade fiduciária sobre bens móveis e imóveis, alinhando a prática processual à jurisprudência já consolidada pelo STJ.

Na prática, o provimento não trouxe inovações radicais em relação ao que já vinha sendo construído pela jurisprudência, mas conferiu maior previsibilidade e segurança jurídica ao padronizar exigências que antes variavam significativamente conforme a vara e o tribunal responsáveis pelo processo, um ganho relevante para produtores que, até então, enfrentavam incerteza sobre a documentação necessária e o rito a ser seguido.

Por que a recuperação judicial pode ser o caminho certo

Para o produtor rural endividado, a recuperação judicial oferece vantagens que a negociação bilateral com credores isoladamente não proporciona: a suspensão das execuções e penhoras durante o período de proteção (stay period), a possibilidade de renegociar simultaneamente diferentes classes de credores em um único plano, e a preservação da atividade produtiva, elemento essencial em um setor cuja continuidade depende diretamente dos ciclos agrícolas e da manutenção de contratos de arrendamento, fornecimento e maquinário.

Ao mesmo tempo, trata-se de um processo tecnicamente complexo, que exige planejamento cuidadoso desde a fase pré-processual: organização documental, avaliação da viabilidade econômica real do negócio, identificação correta dos créditos concursais e extraconcursais, e construção de um plano de recuperação que seja, ao mesmo tempo, factível para o produtor e aceitável para a assembleia de credores.

Nossa atuação

Acompanhamos de perto as mudanças trazidas pela Lei 14.112/2020, pela jurisprudência do STJ em matéria de recuperação judicial rural e, mais recentemente, pelo Provimento CNJ 216/2026. Nossa equipe atua na estruturação de pedidos de recuperação judicial de produtores rurais, na negociação com instituições financeiras e demais credores, e na defesa dos interesses do produtor ao longo de todo o processo recuperacional. Se sua propriedade enfrenta um cenário de endividamento que compromete a continuidade da atividade, estamos à disposição para uma avaliação técnica da viabilidade e das melhores alternativas jurídicas disponíveis.

Este conteúdo tem caráter informativo e não substitui a consulta a um advogado para análise do caso concreto.

Perguntas frequentes

O produtor rural pessoa física pode pedir recuperação judicial?

Sim. Ele é equiparado ao empresário para fins da Lei 11.101/2005, desde que comprove o exercício profissional da atividade rural organizada por mais de dois anos e esteja inscrito na Junta Comercial no momento do pedido.

A inscrição na Junta Comercial precisa ter dois anos?

Não. O STJ esclareceu que a atividade exercida antes do registro formal pode ser considerada para completar o biênio, porque a inscrição tem natureza declaratória, e não constitutiva, da condição de empresário.

O que o Provimento CNJ 216/2026 mudou?

O Provimento CNJ 216/2026 uniformizou o processamento em todo o país: exigências documentais próprias da atividade rural, seções específicas sobre o ciclo rural nos relatórios mensais e o tratamento dos créditos extraconcursais.

Produtor pessoa física pode pedir recuperação judicial?

Pode, desde que comprove o exercício da atividade rural por mais de dois anos e esteja inscrito na Junta Comercial no momento do pedido, conforme o Tema 1.145 do STJ.

Recuperação judicial ou negociação direta com cada credor?

A recuperação judicial oferece o que a negociação bilateral não proporciona: a suspensão das execuções e penhoras durante o período de proteção, a possibilidade de renegociar simultaneamente diferentes classes de credores em um único plano, e a preservação da atividade produtiva. Em troca, é processo tecnicamente complexo, que exige planejamento desde a fase pré-processual.

O que acontece se a documentação não estiver organizada?

O pedido exige organização documental, avaliação da viabilidade econômica real do negócio, identificação correta dos créditos concursais e extraconcursais e um plano factível para o produtor e aceitável para a assembleia. Plano que trata como concursal um crédito que não é, como o vinculado a CPR ou à propriedade fiduciária, nasce inexequível.

O que muda para quem pede recuperação judicial em Mato Grosso do Sul e em Mato Grosso?

O Provimento CNJ 216/2026 uniformizou exigências que antes variavam conforme a vara e o tribunal, o que deu previsibilidade a quem pede recuperação judicial nas comarcas produtoras dos dois estados. Em 2025 foram registrados 1.990 pedidos de recuperação judicial ligados ao setor rural no país, crescimento de 56,4 por cento em relação ao ano anterior.

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