CFH Advogados, Carneiro, Fernandes & Hammarstrom

Prescrição da dívida: os prazos que o devedor esquece de contar

Dívida velha não é dívida morta, mas pode ser dívida inexigível. A diferença está no prazo, no título e no que o credor fez nesse meio-tempo.

A prescrição extingue a pretensão de cobrar. Títulos de crédito, como cédula rural, CPR e duplicata, prescrevem em três anos do vencimento; contrato e confissão de dívida, em cinco. A prescrição se interrompe uma vez, por citação, protesto ou reconhecimento da dívida, e recomeça do zero.

Os prazos, título por título

Os prazos, título por título
Título ou documentoPrazo da execuçãoFundamentoDepois
Cédula de crédito rural3 anos do vencimentoDL 167, art. 60; legislação cambialMonitória em 5 anos
CPR3 anos do vencimentoLei 8.929, art. 10; legislação cambialMonitória em 5 anos
Cédula de crédito bancário3 anos, pela remissão cambialLei 10.931, art. 44Monitória em 5 anos
Nota promissória3 anos do vencimentoLei Uniforme, art. 70Monitória em 5 anos (Súmula 504)
Duplicata3 anos do vencimentoLei 5.474, art. 18Monitória em 5 anos
Cheque6 meses do fim do prazo de apresentaçãoLei 7.357, art. 59Monitória em 5 anos (Súmula 503)
Contrato e confissão de dívida (dívida líquida)5 anosCC, art. 206, § 5º, I—
Dívida sem instrumento10 anosCC, art. 205—

O art. 206, § 3º, VIII do Código Civil fixa em três anos a pretensão para haver o pagamento de título de crédito, a contar do vencimento, ressalvadas as leis especiais, e o art. 206, § 5º, I do Código Civil, em cinco anos a de dívida líquida em instrumento público ou particular. Os prazos da cédula rural e da CPR decorrem da remissão à legislação cambial, entendimento consolidado no STJ, mas a contagem contra o avalista e o efeito de cada aditivo se conferem no caso.

Interrupção: o que zera a contagem

O art. 202 do Código Civil lista as causas de interrupção, e o caput diz que ela só pode ocorrer uma vez: o despacho do juiz que ordena a citação, ainda que incompetente, se o interessado a promover no prazo; o protesto, judicial ou cambial; a apresentação do título em inventário ou concurso de credores; qualquer ato judicial que constitua em mora o devedor; e qualquer ato inequívoco, ainda que extrajudicial, que importe reconhecimento do direito pelo devedor. Este último é o que o devedor esquece: pagar uma parcela, pedir renegociação por escrito, assinar confissão de dívida ou aditivo reconhece a dívida e zera o prazo. O protesto cambial, tratado em protesto de CPR e de duplicata, é o meio que o credor usa para renovar o prazo de título perto de prescrever. Interrompida uma vez, a prescrição recomeça do zero, pelo parágrafo único, a partir do ato que a interrompeu ou do último ato do processo. Suspensão, diferente de interrupção, ocorre nas hipóteses dos artigos 197 a 201 e apenas pausa a contagem.

Monitória, intercorrente e como alegar

Prescrita a execução do título, o credor não perde a dívida: pode propor ação monitória, com base no título prescrito como prova escrita, no prazo de cinco anos contados do dia seguinte ao vencimento, conforme as Súmulas 503 e 504 do STJ, para cheque e nota promissória, aplicadas por analogia aos demais títulos. Na monitória, o devedor discute a dívida em embargos monitórios, com maior amplitude. A prescrição intercorrente, do art. 921 do Código de Processo Civil, alcança a execução que ficou parada por falta de bens: suspensa por um ano sem localização, começa a correr o prazo de prescrição do título, e o juiz a reconhece de ofício, ouvidas as partes. A prescrição consumada se alega por exceção de pré-executividade, quando as datas bastam, tratada em matérias que cabem na exceção, ou nos embargos, e o juiz pode reconhecê-la de ofício. O conjunto está em defesa em execução.

Quem pode alegar a prescrição, e qual juízo a reconhece

A prescrição da dívida é alegada pelo próprio executado, nos embargos ou por exceção de pré-executividade, e reconhecida pelo juízo em que a cobrança corre, que pode declará-la até de ofício.

Quem alega é o devedor, e também o coobrigado executado, como o avalista, quanto à cobrança que lhe é dirigida. Não existe pedido administrativo de prescrição: cartório, banco e órgão de cadastro não a declaram, e é por isso que dívida prescrita continua sendo cobrada por telefone e por carta. O juízo competente é o da execução, que no título extrajudicial segue o foro eleito no contrato ou o domicílio do devedor. Prescrita a execução e proposta a monitória, a discussão passa ao juízo onde a monitória corre. Na execução parada por falta de bens, a prescrição intercorrente é reconhecida pelo próprio juízo da execução, de ofício, depois de ouvidas as partes. E o juiz conhece a prescrição de ofício desde a Lei 11.280/2006, o que não dispensa o devedor de alegá-la na primeira oportunidade, com as datas demonstradas documento por documento.

Erros comuns

  • Pagar uma parcela de dívida prescrita e reconhecê-la
  • Pedir renegociação por escrito sem saber que interrompe a prescrição
  • Contar o prazo do contrato para título de crédito, ou o contrário
  • Esquecer a monitória depois da prescrição da execução
  • Não alegar a prescrição na primeira oportunidade

Conteúdo informativo. Cada caso é avaliado individualmente, a partir do título, dos autos e da situação patrimonial, e nada aqui substitui a análise do caso concreto nem representa promessa de resultado.

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Este conteúdo integra a área de Dívidas e reestruturação.

Conteúdo informativo. Cada caso é avaliado individualmente, a partir dos documentos e das garantias envolvidas, e nada aqui substitui a análise do caso concreto nem representa promessa de resultado.

Perguntas frequentes

Em quanto tempo prescreve a cédula rural?

Em três anos do vencimento, pela remissão do Decreto-Lei 167 à legislação cambial, conforme o STJ. Depois, o credor tem a monitória por cinco anos.

Pagar uma parcela reinicia a prescrição?

Sim. É ato inequívoco de reconhecimento da dívida, pelo artigo 202, VI, do Código Civil, e interrompe a prescrição uma vez.

O que é prescrição intercorrente?

A que corre dentro da execução parada por falta de bens: após um ano de suspensão, conta-se o prazo do título, e o juiz a reconhece de ofício, pelo artigo 921 do CPC.

Dívida prescrita pode ser cobrada?

A execução de dívida prescrita não se admite; a ação monitória, sim, no prazo de cinco anos. Quanto ao cadastro de inadimplentes, a Súmula 323 do Superior Tribunal de Justiça fixa o limite de cinco anos para a inscrição, independentemente da prescrição da execução, de modo que a prescrição por si só não retira o nome do cadastro.

E a confissão de dívida, prescreve em quanto tempo?

A dívida líquida constante de instrumento público ou particular, como o contrato e a confissão de dívida, prescreve em cinco anos, pelo artigo 206, § 5º, I, do Código Civil. Dívida sem instrumento segue o prazo geral de dez anos do artigo 205.

Em quanto tempo prescreve a execução de um cheque?

A execução do cheque prescreve em seis meses contados do fim do prazo de apresentação, pelo artigo 59 da Lei 7.357. Depois disso resta ao credor a ação monitória, em cinco anos, conforme a Súmula 503 do STJ.

A prescrição pode ser interrompida mais de uma vez?

A interrupção da prescrição só pode ocorrer uma vez, e a contagem recomeça do zero a partir do ato que a interrompeu ou do último ato do processo. Protesto cambial, despacho que ordena a citação e reconhecimento da dívida pelo devedor são as causas mais frequentes.

Como se alega a prescrição no processo?

Quando as datas do título e dos autos bastam, a prescrição se alega por exceção de pré-executividade; se depender de prova sobre a interrupção, vai nos embargos. O juiz também pode reconhecê-la de ofício.

Retrato de Rômulo Almeida Carneiro

Responsável pelo conteúdo

Rômulo Almeida Carneiro

OAB/MS 15.746, sócio-fundador e administrador judicial credenciado pela TMA Brasil.

Publicado em · Revisado em · 6 min de leitura
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