Colação e dispensa de colação
Como as doações entram na conta.
Metade do patrimônio não é do titular para doar. Todo planejamento sucessório começa por essa conta.
Legítima é a metade dos bens que a lei reserva aos herdeiros necessários: descendentes, ascendentes e cônjuge. O titular só dispõe livremente da outra metade, a parte disponível, por doação ou testamento. A doação que avança sobre a legítima é inoficiosa e nula na parte que exceder, e os herdeiros prejudicados podem pedir a redução. Nenhuma holding contorna esse limite.
Resumo
O art. 1.845 do Código Civil enumera os herdeiros necessários: os descendentes, os ascendentes e o cônjuge. O companheiro em união estável tem sido equiparado ao cônjuge pela jurisprudência do Supremo Tribunal Federal, que declarou inconstitucional a distinção entre os regimes sucessórios, embora a inclusão expressa no rol dependa de alteração legislativa. Irmãos, sobrinhos e demais colaterais não são herdeiros necessários: podem ser afastados por testamento sem justificativa. A existência de um herdeiro necessário é o que ativa a reserva: com pelo menos um deles, metade dos bens é legítima, pelo art. 1.846 do Código Civil. Sem nenhum, o titular dispõe de tudo. Na família com holding, os herdeiros necessários são os mesmos que receberão as quotas, e o cálculo da parte disponível é feito antes da doação, no planejamento sucessório.
A legítima é metade dos bens da herança, e o art. 1.847 do Código Civil manda calculá-la sobre o valor dos bens existentes na abertura da sucessão, abatidas as dívidas e as despesas do funeral, e adicionado o valor dos bens sujeitos a colação. Na prática do planejamento, a conta é feita hoje, sobre o patrimônio atual, para saber quanto se pode doar sem risco. Se o patrimônio é de dez, a legítima é cinco e a parte disponível é cinco. Se o titular já doou três a um filho como adiantamento, a doação se colaciona e entra na conta; se doou com dispensa de colação, imputa-se à parte disponível e consome parte dela. O cálculo considera o cônjuge, que além de herdeiro necessário pode ter meação conforme o regime de bens, o que reduz o patrimônio próprio do titular antes mesmo de se calcular a legítima. Cada regime muda o resultado, tema do artigo sobre holding e regime de bens.
O art. 549 do Código Civil declara nula a doação quanto à parte que exceder a de que o doador, no momento da liberalidade, poderia dispor em testamento. É a doação inoficiosa. O momento de aferição é o da doação, e não o da morte: o que se apura é se, quando doou, o titular tinha parte disponível suficiente. A nulidade é da parte excedente, e não da doação toda. Os herdeiros prejudicados pedem a redução, no inventário ou em ação própria, e o donatário devolve o excesso ou o valor correspondente. Na holding, a doação inoficiosa é a de quotas em valor superior à parte disponível, frequentemente a um único herdeiro. A ação de redução tem prazo e a jurisprudência oscila entre o decenal do art. 205 do Código Civil e prazos menores, o que aconselha calcular certo em vez de contar com a prescrição. A questão da colação está no artigo sobre colação e dispensa de colação.
| Vontade do titular | Permitido? | Como |
|---|---|---|
| Doar mais a um filho | Sim, até a parte disponível | Doação com dispensa de colação ou testamento |
| Deixar tudo a um filho | Não, se há outros herdeiros necessários | — |
| Afastar irmão ou sobrinho | Sim | Testamento; não são necessários |
| Impor cláusulas sobre a legítima | Só com justa causa | Testamento, com a causa declarada |
| Deserdar herdeiro necessário | Só nas hipóteses legais | Testamento com causa expressa e prova |
| Doar tudo em vida com usufruto | Não; a legítima se respeita na doação | Doação limitada à parte disponível quanto ao excesso |
A redução é pedida pelos herdeiros necessários prejudicados, no inventário ou em ação própria, e exige a prova de que a doação excedeu a parte disponível no momento em que foi feita.
São três os requisitos do pedido. O primeiro é a condição de herdeiro necessário de quem pede, porque colateral não tem legítima a defender. O segundo é a demonstração do patrimônio do doador na data da liberalidade, com a soma dos bens, o abatimento das dívidas e a consideração da meação do cônjuge, que é o que permite dizer qual era a parte disponível naquele momento. O terceiro é o excesso: a nulidade alcança apenas a parcela que passou do limite, e é ela que se devolve, em bem ou em valor. Quanto ao prazo, a jurisprudência oscila entre o prazo decenal e prazos menores, e a defesa do donatário costuma começar exatamente por aí. Para a família, a leitura prática é que o cálculo feito antes da doação vale mais do que qualquer tese sobre prescrição depois.
Errar a conta da legítima custa a devolução do excesso, as despesas da ação de redução e, muitas vezes, o refazimento de uma estrutura societária já registrada.
O custo tem três camadas. A primeira é a do desfazimento: o donatário devolve o bem ou o valor correspondente, e se as quotas já foram integralizadas com imóveis, a correção passa por nova alteração societária, com emolumentos e tributos de transmissão que ninguém havia orçado. A segunda é a do litígio: custas, honorários, avaliação do patrimônio e o tempo do processo, que corre junto com o inventário e o atrasa. A terceira é a familiar, que não entra em planilha e é a que leva mais tempo para ser reparada. Quem decide a redução é o juízo, no próprio inventário quando a discussão couber nele, ou na ação própria. Cartório e Junta Comercial não avaliam legítima: registram o que lhes é apresentado, e é por isso que a doação excessiva chega a ser registrada e só depois é desfeita.
No patrimônio rural de Mato Grosso do Sul e de Mato Grosso, a legítima encontra um limite adicional: a terra não se divide abaixo da fração mínima de parcelamento do município.
Duas regras passam a operar juntas. A da legítima diz quanto cada herdeiro necessário tem de receber. A da indivisibilidade diz que o imóvel rural não pode ser desmembrado abaixo da fração mínima fixada pelo INCRA para aquele município. O resultado é que, em muitas fazendas da região, a parte reservada aos herdeiros não pode ser entregue em hectares demarcados, e a saída é transmitir participação em sociedade, com a matrícula preservada. Soma-se a geografia: família com áreas nos dois estados lida com cartórios de circunscrições diferentes e com frações mínimas distintas, uma por município. É por isso que, na região de Dourados, o cálculo da legítima se faz com o CCIR e a matrícula de cada área à mesa, e não apenas com o valor total do patrimônio.
A holding é uma estrutura societária, não um mecanismo de proteção contra credores. Constituí-la ou transferir bens para ela em cenário de endividamento pode ser questionado judicialmente. Efeitos tributários variam conforme a estrutura e a legislação estadual e municipal, e devem ser avaliados junto a profissional contábil antes de qualquer decisão.
Este conteúdo integra a área de Holding familiar e patrimonial.
Conteúdo informativo. Cada caso é avaliado individualmente, a partir dos documentos e das garantias envolvidas, e nada aqui substitui a análise do caso concreto nem representa promessa de resultado.
Metade do patrimônio, a parte disponível, se houver herdeiro necessário. A outra metade é a legítima e não pode ser reduzida por doação nem por testamento.
Descendentes, ascendentes e cônjuge, pelo artigo 1.845 do Código Civil. O companheiro tem sido equiparado ao cônjuge pela jurisprudência.
É inoficiosa: nula quanto ao excesso, pelo artigo 549. Os herdeiros prejudicados pedem a redução, e o donatário devolve o que passou do limite.
A inoficiosidade se afere no momento da doação. A legítima final se calcula na abertura da sucessão, com as doações colacionadas.
Irmãos, sobrinhos e demais colaterais não são herdeiros necessários e podem ser afastados por testamento, sem justificativa. A reserva legal existe para descendentes, ascendentes e cônjuge.
A meação, conforme o regime de bens, sai primeiro, e só depois se calcula a legítima sobre o patrimônio próprio do titular. Calcular a parte disponível sem descontar a meação é um dos erros mais frequentes.
OAB/MS 20.674, sócio nominal e administrador judicial certificado pela TMA Brasil.
Publicado em · Revisado em · 8 min de leituraComo as doações entram na conta.
A meação antes da legítima.
Onde a conta é feita.
Descreva a situação e a equipe da CFH faz a primeira leitura do cenário, do passivo e das garantias envolvidas.