Organização patrimonial
Onde a proteção acaba.
Elas protegem o herdeiro contra o próprio cônjuge e os próprios credores. Não protegem quem doou contra ninguém.
Incomunicabilidade impede que o bem se comunique ao cônjuge do beneficiário. Impenhorabilidade impede que ele responda por dívidas do beneficiário. Inalienabilidade impede a venda, e por lei implica as outras duas. As três se impõem em doação ou testamento, valem sobre a legítima só com justa causa declarada, e protegem o beneficiário, não o doador.
Resumo
A cláusula de incomunicabilidade exclui o bem da comunhão, em qualquer regime de casamento ou união estável do beneficiário: as quotas doadas ao filho com essa cláusula não se dividem com o cônjuge dele numa separação. A cláusula de impenhorabilidade subtrai o bem à execução por dívidas do beneficiário, com as exceções que a jurisprudência admite, como as dívidas do próprio bem. A cláusula de inalienabilidade proíbe o beneficiário de vender, doar ou dar em garantia; e o art. 1.911 do Código Civil dispõe que a inalienabilidade imposta aos bens por ato de vontade implica impenhorabilidade e incomunicabilidade. As três podem ser vitalícias ou temporárias, e podem ser impostas em doação ou em testamento. Numa holding familiar, gravam as quotas doadas e são anotadas no contrato social e na Junta Comercial.
O testador e o doador dispõem livremente da parte disponível, e sobre ela podem impor as cláusulas sem justificar. Sobre a legítima, o art. 1.848 do Código Civil só admite cláusulas de inalienabilidade, impenhorabilidade e incomunicabilidade se houver justa causa, declarada no testamento. A justa causa é apreciada pelo juiz, e a jurisprudência tem aceito, por exemplo, a prodigalidade comprovada do herdeiro ou a proteção contra dívidas conhecidas. A declaração genérica, como "para proteção do patrimônio", tende a ser considerada insuficiente. Na doação de quotas com dispensa de colação, as cláusulas incidem sobre a parte disponível e não exigem justa causa; na doação como adiantamento de legítima, a exigência se aplica. O cálculo da parte disponível está no artigo sobre legítima e herdeiros necessários.
Bem inalienável não pode ser vendido, mas pode ser substituído. O art. 1.848, § 2º do Código Civil permite que, mediante autorização judicial e havendo justa causa, os bens gravados sejam convertidos em outros, sub-rogando-se os ônus. É o caminho quando o imóvel gravado precisa ser vendido para comprar outro, ou quando as quotas gravadas de uma sociedade precisam ser trocadas por quotas de outra numa reorganização. O pedido é feito ao juiz com a demonstração da conveniência, e as cláusulas passam ao novo bem. Sem autorização, a venda de bem inalienável é nula. Na prática da holding, a sub-rogação aparece quando a família vende um imóvel da sociedade cujas quotas estão gravadas; o produto da venda, ou o bem que o substitui, fica sujeito às mesmas cláusulas, o que deve constar da deliberação social.
As cláusulas protegem o beneficiário contra o cônjuge e os credores dele. Não protegem o doador: doação feita para fraudar os próprios credores continua atacável pelos artigos 158 a 165 do Código Civil, e a cláusula de impenhorabilidade não impede a anulação. Não protegem contra dívidas do próprio bem, como tributos e despesas a ele vinculadas, que a jurisprudência exclui da impenhorabilidade. Não impedem a desconsideração da personalidade jurídica da holding, pelo art. 50 do Código Civil, quando há confusão patrimonial. E não impedem a penhora dos frutos: a cláusula sobre as quotas não alcança, por si, os lucros distribuídos ao beneficiário, salvo se estendida a eles expressamente. Quem procura nessas cláusulas uma "blindagem" encontra proteção real, porém limitada, tema de organização patrimonial.
| Cláusula | Impede | Não impede |
|---|---|---|
| Incomunicabilidade | Comunhão com o cônjuge do beneficiário | Penhora por dívida do beneficiário |
| Impenhorabilidade | Execução por dívida do beneficiário | Dívidas do próprio bem; fraude do doador |
| Inalienabilidade | Venda, doação e garantia; implica as outras duas | Sub-rogação com autorização judicial |
As três cláusulas só valem se impostas por quem dispõe do bem, no próprio instrumento de doação ou de testamento, e sobre a legítima dependem de justa causa declarada.
Os requisitos são de forma, de titularidade e de limite. A forma: a cláusula se escreve no instrumento que transmite o bem, e não depois dele; em quotas, no instrumento de doação e no contrato social; em imóvel, na escritura. A titularidade: o disponente grava o que é seu, e a cláusula alcança o bem transmitido ao beneficiário, não o patrimônio de quem doou. O limite: sobre a parte disponível, a cláusula se impõe sem justificar; sobre a legítima, só com justa causa declarada, que o juiz aprecia depois. Há ainda a diferença de momento entre os dois instrumentos. Na doação, a cláusula passa a valer com o ato, junto das demais condições. No testamento, só produz efeito com a abertura da sucessão, o que significa que até ali nada está gravado, e é essa distância que costuma decidir qual dos dois caminhos a família escolhe.
Anotar as cláusulas custa o emolumento do ato em que elas entram, e valem pelo tempo que o instrumento fixar, que pode ser vitalício ou ter termo definido.
Não existe custo próprio de cláusula: paga-se o ato que a carrega. Em quotas, é o da alteração do contrato social e do arquivamento na Junta Comercial. Em imóvel, é o da escritura e do registro na matrícula, pela tabela de emolumentos do estado em que o bem está. A sub-rogação sai mais caro, porque envolve pedido judicial, com custas e honorários, e depois a nova averbação. Quanto à duração, as três cláusulas podem acompanhar o beneficiário por toda a vida ou cessar em um marco escrito no instrumento. Vencido esse marco, o bem se desgrava, e o cancelamento precisa ser pedido ao registro para que a certidão deixe de mostrar o ônus. Quando a intenção é que a proteção termine em algum momento, o termo precisa constar expressamente, porque o que não está escrito no instrumento não se presume depois.
As cláusulas se registram onde o bem está: as de quotas, no contrato social arquivado na Junta Comercial; as de imóvel, na matrícula do cartório da circunscrição do bem.
Em Mato Grosso do Sul e em Mato Grosso isso se desdobra em endereços distintos para a mesma família. A anotação societária se faz na Junta Comercial do estado em que a holding tem sede, e é ela que dá publicidade ao gravame perante terceiros. A anotação registral se faz na matrícula de cada imóvel, no cartório da circunscrição em que o bem está, com tabelas de emolumentos estaduais diferentes nos dois estados. Quem decide a validade da cláusula, porém, não é o registrador nem a Junta Comercial: é o juízo. A justa causa declarada em testamento é apreciada pelo juiz, e a troca de bem gravado depende de autorização judicial. Para a família da região de Dourados, o roteiro não muda: escrever a cláusula, anotá-la em cada registro e guardar a justificativa que a sustenta.
A holding é uma estrutura societária, não um mecanismo de proteção contra credores. Constituí-la ou transferir bens para ela em cenário de endividamento pode ser questionado judicialmente. Efeitos tributários variam conforme a estrutura e a legislação estadual e municipal, e devem ser avaliados junto a profissional contábil antes de qualquer decisão.
Este conteúdo integra a área de Holding familiar e patrimonial.
Conteúdo informativo. Cada caso é avaliado individualmente, a partir dos documentos e das garantias envolvidas, e nada aqui substitui a análise do caso concreto nem representa promessa de resultado.
Não precisa: por força do artigo 1.911 do Código Civil, ela já implica impenhorabilidade e incomunicabilidade.
Só com justa causa declarada no testamento, pelo artigo 1.848. Sobre a parte disponível, sem justificativa.
Sim, por sub-rogação: com autorização judicial e justa causa, o bem é trocado por outro, que recebe as mesmas cláusulas.
Não. Protege contra credores do beneficiário. Doação em fraude aos credores do doador continua anulável.
A cláusula sobre as quotas não alcança, por si, os lucros distribuídos ao beneficiário. Para protegê-los, é preciso estendê-la expressamente a eles no instrumento.
Nas quotas doadas, as cláusulas são anotadas no contrato social e na Junta Comercial. Em imóvel doado diretamente, constam da escritura e são registradas na matrícula.
OAB/MS 20.674, sócio nominal e administrador judicial certificado pela TMA Brasil.
Publicado em · Revisado em · 7 min de leituraOnde a proteção acaba.
Onde as cláusulas são escritas.
O que exige justa causa.
Descreva a situação e a equipe da CFH faz a primeira leitura do cenário, do passivo e das garantias envolvidas.