CFH Advogados, Carneiro, Fernandes & Hammarstrom

Crédito trabalhista na recuperação e o limite de 150 salários mínimos

É a classe que vota por cabeça, recebe primeiro e tem prazo curto na lei. E é onde o limite de valor mais confunde, porque ele vale na falência, não na recuperação.

Na recuperação judicial, o crédito trabalhista integra a classe I, vota por cabeça e deve ser pago em até um ano, com adiantamento de até cinco salários mínimos, em trinta dias, dos salários vencidos nos três meses anteriores, pelo artigo 54 da Lei 11.101/2005. O limite de cento e cinquenta salários mínimos é regra da classificação na falência.

Resumo

  • A confusão é frequente porque o número circula como se limitasse o que o trabalhador recebe na recuperação.
  • A reclamação trabalhista não se suspende com o deferimento: prossegue na Justiça do Trabalho até a apuração do valor, e só então o crédito é habilitado na recuperação, em regra por ofício do juízo trabalhista, para pagamento na forma do plano.
  • Como o prazo é de um ano e o adiantamento vence em trinta dias, o passivo trabalhista é a primeira exigência de caixa de qualquer plano, e precisa estar dimensionado antes do pedido, inclusive o contingente das ações em curso, cujo valor ainda não existe.
  • Até um ano para os créditos vencidos até a data do pedido, pelo artigo 54, admitida extensão em hipóteses específicas com aprovação da classe.

Na recuperação: prazo curto e voto por cabeça

O art. 54 da Lei 11.101/2005 determina que o plano de recuperação judicial não poderá prever prazo superior a um ano para pagamento dos créditos derivados da legislação do trabalho ou decorrentes de acidentes de trabalho vencidos até a data do pedido, e o parágrafo único exige o pagamento, em até trinta dias, dos salários vencidos nos três meses anteriores ao pedido, até o limite de cinco salários mínimos por trabalhador. A Lei 14.112/2020 admitiu a extensão do prazo em hipóteses específicas, com garantias e aprovação da classe. Na votação, a classe I delibera por maioria simples dos presentes, por cabeça, independentemente do valor, o que dá a um grupo de trabalhadores com créditos pequenos o mesmo peso de um credor grande, conforme se explica em assembleia de credores.

Onde entram os 150 salários mínimos

Onde entram os 150 salários mínimos
RegraOnde se aplicaBase
Pagamento em até 1 anoRecuperação judicialArt. 54
Adiantamento de até 5 salários mínimos em 30 diasRecuperação judicialArt. 54, parágrafo único
Limite de 150 salários mínimos por credor na classe trabalhistaFalênciaArt. 83, I
Excedente classificado como quirografárioFalênciaArt. 83, VI
Crédito cedido a terceiro perde a natureza trabalhistaFalênciaArt. 83, § 4º
Voto por cabeça, maioria simplesAssembleia, classe IArt. 45, § 2º
Retardatário trabalhista mantém direito de votoAssembleiaArt. 10, § 1º

A confusão é frequente porque o número circula como se limitasse o que o trabalhador recebe na recuperação. Não limita: na recuperação, o crédito é pago conforme o plano, respeitado o prazo do artigo 54. O teto do artigo 83, I, opera na falência, onde o que excede cento e cinquenta salários mínimos é reclassificado como quirografário.

A ação trabalhista em curso

A reclamação trabalhista não se suspende com o deferimento: prossegue na Justiça do Trabalho até a apuração do valor, e só então o crédito é habilitado na recuperação, em regra por ofício do juízo trabalhista, para pagamento na forma do plano. A execução do valor apurado, porém, não corre contra o devedor em recuperação, o que corre é a habilitação. Créditos de sócios e de coobrigados seguem regra própria. Esse encaixe entre os dois juízos é o que se descreve em juízo universal e competência, e a habilitação em si está em habilitação e impugnação de crédito.

O efeito no desenho do plano

Como o prazo é de um ano e o adiantamento vence em trinta dias, o passivo trabalhista é a primeira exigência de caixa de qualquer plano, e precisa estar dimensionado antes do pedido, inclusive o contingente das ações em curso, cujo valor ainda não existe. Planos que subestimam essa linha descumprem já no primeiro ano, dentro do biênio de fiscalização, com o risco descrito em convolação em falência. A projeção correta é parte do laudo de viabilidade tratado em plano de recuperação judicial.

Erros comuns

  • Aplicar o limite de 150 salários mínimos na recuperação
  • Deixar o adiantamento dos 30 dias fora do fluxo de caixa
  • Ignorar o contingente das reclamações em curso
  • Supor que a classe I vota por valor
  • Executar na Justiça do Trabalho valor já apurado contra empresa em recuperação

Conteúdo informativo. Cada caso é avaliado individualmente, a partir da matrícula, dos contratos e da fase do processo, e nada aqui substitui a análise do caso concreto nem representa promessa de resultado.

Leitura relacionada

Este conteúdo integra a área de Recuperação judicial do produtor rural.

Conteúdo informativo. Cada caso é avaliado individualmente, a partir dos documentos e das garantias envolvidas, e nada aqui substitui a análise do caso concreto nem representa promessa de resultado.

Perguntas frequentes

Qual o prazo para pagar crédito trabalhista na recuperação?

Até um ano para os créditos vencidos até a data do pedido, pelo artigo 54, admitida extensão em hipóteses específicas com aprovação da classe.

O que são os cinco salários mínimos em 30 dias?

O adiantamento dos salários vencidos nos três meses anteriores ao pedido, até cinco salários mínimos por trabalhador, devido em trinta dias.

O limite de 150 salários mínimos vale na recuperação?

Não. É regra de classificação na falência: o que excede é reclassificado como quirografário, pelo artigo 83.

A reclamação trabalhista para?

Não. Prossegue até a apuração do valor na Justiça do Trabalho; depois, o crédito é habilitado e pago conforme o plano.

Como a classe trabalhista vota na assembleia?

A classe I delibera por maioria simples dos presentes, contada por cabeça, independentemente do valor de cada crédito. Isso dá a um grupo de trabalhadores com créditos pequenos peso equivalente ao de um credor grande na sua própria classe.

Quem perdeu o prazo de habilitação perde o voto?

O credor retardatário, em regra, perde o direito de voto na assembleia, e o crédito trabalhista é a exceção: mantém o voto, pelo § 1º do artigo 10 da Lei 11.101.

O trabalhador que cedeu o crédito mantém a preferência?

O crédito trabalhista cedido a terceiro perde a natureza trabalhista para a classificação na falência, pelo § 4º do artigo 83. A preferência acompanha o trabalhador, não o cessionário.

Por que esse passivo precisa ser dimensionado antes do pedido?

Porque o prazo é de um ano e o adiantamento vence em trinta dias, o que faz do passivo trabalhista a primeira exigência de caixa do plano, incluído o contingente das reclamações em curso, cujo valor ainda não existe. Plano que subestima essa linha descumpre já no primeiro ano, dentro do biênio de fiscalização.

Retrato de Edgar A. G. Fernandes

Responsável pelo conteúdo

Edgar A. G. Fernandes

OAB/MS 19.237, advogado e administrador judicial credenciado pela TMA Brasil.

Publicado em · Revisado em · 5 min de leitura
Continue

Conteúdos relacionados

Análise jurídica do caso

Descreva a situação e a equipe da CFH faz a primeira leitura do cenário, do passivo e das garantias envolvidas.