CFH Advogados, Carneiro, Fernandes & Hammarstrom

Direito de preferência do arrendatário

Vender fazenda arrendada sem avisar o arrendatário deixa o negócio exposto por seis meses. É o prazo em que ele pode depositar o preço e ficar com o imóvel.

O direito de preferência do arrendatário é a faculdade de adquirir o imóvel arrendado em igualdade de condições com terceiro. Notificado da venda, ele tem trinta dias para exercê-la. Não notificado, pode depositar o preço e haver o imóvel para si em até seis meses contados da transcrição do ato de alienação no Registro de Imóveis, pelo artigo 92 do Estatuto da Terra.

Resumo

  • Tem direito de preferência o arrendatário que está na posse do imóvel por contrato em vigor, e a preferência recai sobre a venda do imóvel arrendado, em igualdade de condições com o terceiro interessado.
  • O direito de preferência do arrendatário tem dois prazos distintos, e confundi-los custa o negócio.
  • A notificação da venda ao arrendatário precisa permitir que ele decida com a mesma informação do terceiro.
  • A venda realizada sem notificar o arrendatário não é nula por si: ela fica sujeita à adjudicação.

Quem tem a preferência, e sobre o quê

Tem direito de preferência o arrendatário que está na posse do imóvel por contrato em vigor, e a preferência recai sobre a venda do imóvel arrendado, em igualdade de condições com o terceiro interessado. Não se trata de direito a preço melhor: trata-se de direito a igualar a proposta existente. A preferência alcança também o parceiro, nas condições da lei. Contrato já extinto não gera preferência, e é por isso que a data de vigência importa tanto quanto o fato da ocupação.

Os dois prazos, e o que cada um resolve

O direito de preferência do arrendatário tem dois prazos distintos, e confundi-los custa o negócio. Pelo art. 92 do Estatuto da Terra, o proprietário deve notificar o arrendatário da venda, e ele tem trinta dias, contados da notificação judicial ou comprovadamente feita com recibo, para manifestar o interesse. Esse é o prazo do exercício normal. O segundo é o do remédio: o arrendatário que não foi notificado pode, depositando o preço, haver para si o imóvel arrendado, desde que o requeira em até seis meses contados da transcrição do ato de alienação no Registro de Imóveis.

O que a notificação precisa conter

A notificação da venda ao arrendatário precisa permitir que ele decida com a mesma informação do terceiro. Deve identificar o imóvel, o preço, as condições de pagamento e o prazo da proposta, e ser feita por via que produza prova de entrega. Notificação genérica, que apenas comunica a intenção de vender sem dizer por quanto e em que condições, não faz correr o prazo de trinta dias, porque não coloca o arrendatário em igualdade. É a falha mais comum, e a que mantém a venda exposta pelos seis meses seguintes ao registro.

O que acontece com a venda feita sem notificar

A venda realizada sem notificar o arrendatário não é nula por si: ela fica sujeita à adjudicação. Dentro dos seis meses da transcrição, o arrendatário preterido pode depositar o preço e requerer que o imóvel lhe seja adjudicado nas mesmas condições. Para o comprador, isso significa que a propriedade recém-adquirida pode ser desfeita, com devolução do que pagou, depois de ele já ter feito planos para a área. Para o vendedor, significa responder pelas perdas. É por isso que a existência de contrato agrário em curso é item de verificação anterior ao preço, como se trata em imóvel rural.

Quanto custa exercer a preferência

Exercer a preferência custa ao arrendatário o preço integral do imóvel, nas mesmas condições oferecidas ao terceiro, e não uma fração dele. No caminho da adjudicação, o depósito do preço é condição do pedido, o que exige capacidade financeira imediata e costuma ser o verdadeiro filtro do instituto. Somam-se as custas, os honorários e o ITBI da aquisição. Por isso a preferência é, na prática, um direito que poucos arrendatários conseguem exercer, e um risco que todo comprador de área arrendada precisa medir.

Notificar, negociar ou vender com risco

Notificar, negociar ou vender com risco
Caminho do vendedorO que exigeRisco que corre
Notificar corretamentePreço, condições e prova de entregaPerde trinta dias, e elimina o risco
Obter renúncia expressaManifestação escrita do arrendatárioBaixo, se o contrato estiver vigente
Rescindir antes de venderCausa, ou notificação de retomada no prazoUm ciclo de espera
Vender sem notificarNadaAdjudicação em até seis meses do registro

Quem julga o pedido de adjudicação

O pedido de adjudicação do arrendatário preterido corre na vara cível da comarca da situação do imóvel. O Registro de Imóveis dessa mesma circunscrição é onde o ato de alienação foi transcrito, e é dessa transcrição que corre o prazo de seis meses, o que dá ao registro um papel duplo: ele completa a venda e, ao mesmo tempo, dispara o relógio do preterido. O contrato de arrendamento registrado na matrícula torna a preferência visível a qualquer comprador, e é a forma mais simples de o arrendatário proteger o seu direito.

A preferência na compra de fazenda em Mato Grosso do Sul e Mato Grosso

A verificação da preferência do arrendatário ficou mais relevante em Mato Grosso do Sul e em Mato Grosso. O ciclo atual aumentou a oferta de áreas à venda, muitas arrendadas e várias vinculadas a processos de dívida: segundo levantamento da Serasa Experian divulgado pela imprensa setorial em 2026, Mato Grosso do Sul registrou 38 pedidos de recuperação judicial no agro no primeiro trimestre de 2026, o quarto maior do país, e Mato Grosso concentra cerca de 30 por cento dos pedidos de produtores rurais do Brasil. Comprar fazenda nessas condições sem examinar os contratos agrários em curso expõe o negócio por seis meses depois do registro. A verificação é documental e rápida, e vem antes da negociação do preço.

Erros que custam caro na preferência

  • Notificar sem informar preço e condições, o que não faz correr os trinta dias
  • Notificar sem prova de entrega
  • Comprar área arrendada sem exigir a notificação ou a renúncia do arrendatário
  • Supor que a venda extingue o arrendamento em curso
  • Deixar o contrato de arrendamento fora da matrícula, o que fragiliza o arrendatário
  • Perder os seis meses da transcrição, que é o prazo do remédio

Como a CFH atua na preferência

O escritório atua nos dois lados do direito de preferência. Para quem vende, conduz a notificação com o conteúdo e a forma que fazem correr o prazo, ou obtém a renúncia expressa, de modo que o negócio não fique exposto. Para quem compra, verifica os contratos agrários em curso antes da proposta, junto com a matrícula. E para o arrendatário preterido, examina a data da transcrição, o preço praticado e a viabilidade do depósito, antes de propor a adjudicação. A retomada da área pelo proprietário, que é a outra ponta do mesmo contrato, está em rescisão de arrendamento rural.

Conteúdo informativo. Cada caso é avaliado individualmente, a partir dos contratos, da documentação da atividade e da situação de cada safra, e nada aqui substitui a análise do caso concreto nem representa promessa de resultado.

Perguntas frequentes

Qual o prazo do arrendatário para exercer a preferência?

Trinta dias contados da notificação judicial ou comprovadamente feita com recibo, pelo artigo 92, §3º, do Estatuto da Terra.

E se o arrendatário não for notificado?

O arrendatário não notificado pode, depositando o preço, haver para si o imóvel arrendado, desde que requeira em até seis meses contados da transcrição do ato de alienação no Registro de Imóveis.

A notificação precisa dizer o preço?

Sim. A preferência é exercida em igualdade de condições, e notificação que não informa preço e condições de pagamento não coloca o arrendatário em igualdade nem faz correr o prazo.

A venda sem notificação é nula?

Não é nula por si, mas fica sujeita à adjudicação pelo arrendatário preterido dentro dos seis meses da transcrição, com devolução do preço ao comprador.

O parceiro também tem preferência?

A preferência prevista para os contratos agrários alcança o parceiro nas condições da lei, do mesmo modo que alcança o arrendatário.

O que é o direito de preferência do arrendatário?

O direito de preferência do arrendatário é a faculdade de adquirir o imóvel arrendado em igualdade de condições com terceiro. Não é direito a preço melhor: é direito a igualar a proposta existente, e alcança o arrendatário que está na posse do imóvel por contrato em vigor.

Quanto custa exercer a preferência?

Exercer a preferência custa ao arrendatário o preço integral do imóvel, nas mesmas condições oferecidas ao terceiro, e não uma fração dele. No caminho da adjudicação, o depósito do preço é condição do pedido, e somam-se as custas, os honorários e o ITBI da aquisição.

Notificar, obter renúncia ou vender sem avisar?

Notificar corretamente, com preço, condições e prova de entrega, custa trinta dias de espera e elimina o risco. A renúncia expressa do arrendatário resolve quando o contrato está vigente. Vender sem notificar não exige nada do vendedor e deixa o negócio sujeito à adjudicação em até seis meses do registro.

Qual juízo decide o pedido de adjudicação?

O pedido de adjudicação do arrendatário preterido corre na vara cível da comarca da situação do imóvel. O Registro de Imóveis dessa mesma circunscrição é onde o ato de alienação foi transcrito, e é dessa transcrição que corre o prazo de seis meses.

O que conferir ao comprar fazenda arrendada em Mato Grosso do Sul e em Mato Grosso?

O ciclo atual aumentou a oferta de áreas à venda nos dois estados, muitas arrendadas e várias vinculadas a processos de dívida. Comprar nessas condições sem examinar os contratos agrários em curso expõe o negócio por seis meses depois do registro, e a verificação é documental, rápida e anterior à negociação do preço.

Retrato de Edgar A. G. Fernandes

Responsável pelo conteúdo

Edgar A. G. Fernandes

OAB/MS 19.237, advogado e administrador judicial credenciado pela TMA Brasil.

Publicado em · Revisado em · 8 min de leitura
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